O quilombo resiste
No sertão da Bahia, uma comunidade remanescente de quilombos, há séculos na região, luta para sobreviver em meio ao descaso do governo. Resta muito pouco de sua cultura original, pagada ao longo do tempo por causa do preconceito dos brancos.Por Leonardo Sakamoto
![]() |
Vista do Povoado da Barra |
Quem chega a esses vilarejos pensando em encontrar casas de palha cobertas com telhados de folha de palmeira - no melhor estilo tribal angolano - se decepciona logo de cara. Antenas parabólicas brotam do alto de casinhas coloridas, esparsas, difíceis, pipocando aqui e ali, mais como testemunhas do que como réus. Tanto em Barra quanto em Bananal, as igrejas são o centro da vida social como em qualquer outra cidade do interior. Construções não são muitas. Dá para contar nos dedos das mãos (calejadas com o trabalho nas roças) e dos pés (cansados de caminhar nas estradas poeirentas). As cruzes no único cemitério competem com as ervas daninhas e o mato para ver quem fica com a atenção do visitante. O rio Brumado, de águas cristalinas, corta os vilarejos indo morrer na barragem mais à frente.
![]() |
Povoado do Bananal |
Bandeirantes chefiados por Raposo Tavares escravizaram os quilombolas, colocando-os para remexer cascalho. Não foram erguidas senzalas e os negros continuaram vivendo em suas terras enquanto foi erguida a vila de Mato Grosso para os brancos. Com a exploração, o ouro foi escasseando e as atenções se voltaram para o norte da Chapada, região de Lençóis, onde haviam sido descobertas jazidas de diamantes. Com isso a liberdade foi reconquistada, mas o preconceito e a discriminação continuou.
![]() |
Centro do povoado da Barra |
A energia elétrica chegou há quatro anos e a água encanada em 1988 depois de muita briga por parte da comunidade. Os políticos locais do passado, seguindo a inércia racista, fizeram de tudo para que ambas não fossem instaladas nos arraiais. A luz poderia ter vindo muito tempo antes. Porém, foi desviada para que os "negros" não fossem beneficiados.
O posto de saúde existe na comunidade desde 1986 e possui agentes de saúde. Um trabalho conjunto com a Pastoral da Criança acabou com a desnutrição no lugar e diminuiu as complicações pós-parto. Antes, morria-se muito do "mal do sétimo dia" (infecção que começa no umbigo do recém-nascido). Passava-se óleo e outras misturas para acelerar a queda do umbigo. Hoje, as doenças cardíacas são as que mais matam nos arraiais e não raros são os casos de pressão alta.
De acordo com a Fundação Palmares, as comunidades, juntas, possuem por volta de 740 habitantes. Desse valor, desconta-se as migrações sazonais, o pessoal que vai para São Paulo, depois volta para o Nordeste, desce de novo para o sul e retorna ao norte num vai e vêm sem fim. Provavelmente, metade disso é de residentes fixos.
Os sobrenomes são poucos. Silva, Jesus, Sousa, Ramos, Santos. Basicamente essas são as famílias. Muitos casamentos endogâmicos, isto é, entre parentes, primo com prima, tio com sobrinha. Os sobrenomes vão se cruzando, se misturando. "Mas, na verdade, todo mundo é primo", como atesta Claudina Silva, 80 anos, uma das moradoras mais antigas da comunidade. O que é óbvio se considerarmos que o casamento com pessoas de fora da comunidade é uma novidade das últimas décadas. Por isso, antigamente era muito comum bebês nascerem com defeitos físicos ou mentais.
![]() |
Claudina Silva na sua horta de mandioca |
Pra me carinhar, ah!
Saudade dele, ah!
Quer me matar, ah!
Se eu disser que bala mata, ah!
Bala não mata ninguém, ah!
A bala que mata gente, ah!
É amar e querer bem, ah!
![]() |
Claudina (á direita) e sua irmã Maria na fachada de sua casa |
"Nossos pais contavam histórias de sofrimento, da época da escravidão. Mas não queríamos ouvir as coisas dos mais velhos porque achávamos que era caduquice. Aí eles morreram e a gente, que não soube aproveitar, perdemos isso para sempre." Nas palavras de Claudina, o testamento de um povo. O racismo que sofreram fez com que, ao longo dos anos, os negros das comunidades substituíssem sua cultura, tradições, crenças pelas dos portugueses. No imaginário das pessoas, as coisas que vinham dos brancos eram melhores que a dos negros. Candomblé e dialetos tribais estavam ligados à escravidão e por isso foram sendo abandonados. Enquanto isso, catolicismo e língua portuguesa adotados incondicionalmente.
![]() |
Inventario do século XVIII relacionando a posse de escravos negros |
"Os velhos estão acabando e, se não tomarmos cuidado, com eles vão embora muitas das tradições que nos restam", alerta Carmo Joaquim da Silva, presidente da Associação de Desenvolvimento Comunitário Rural de Barra do Brumado, Bananal e Riacho das Pedras. Carmo é o líder local e tenta trazer de volta para o quilombo a cultura dos negros que se perdeu. Para isso, tem recebido apoio de grupos de consciência negra de Salvador. Em Barra e Bananal comemora-se o dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) aniversário da morte de Zumbi e não o 13 de maio que, segundo eles, foi um "acordo de reis e da Europa para vender seus produtos".
![]() |
Os tijolos de adobo são ultilizados coo principal material de construção das casas ha séculos |
"Nos últimos 300 anos, nossa cultura se perdeu, foi tomada. Não houve resistência. Queremos que o pessoal que trabalha conosco em Salvador nos explique o que perdemos", completa Carmo Joaquim.
Durante séculos, as comunidades de Barra e Bananal passaram por um lento, mas contínuo, processo de apagamento de sua cultura. Ora por influência do racismo externo e o bombardeamento de valores ocidentais, ora por uma autocensura que se tornou maior após a abolição da escravidão.
![]() |
Centro da cidade de Rio das Contas que teve seu apogeu com o ouro |
![]() |
Vista do centro do povoado de Barra |
Desconsideravam-se as terras. É mais ou menos como ser enxotado de casa e ser pago apenas pelos armários que você deixou.
Em um relatório de agosto de 1999 do próprio DNOCS, o órgão reconhece a situação de pobreza a que estão submetidos os moradores e que também não realizou o pagamento às famílias sem títulos de terra.
Porém, de acordo com Carmo Joaquim da Silva, presidente da associação de moradores, muitos moradores possuíam escrituras das terras que o DNOCS teria levado sob a promessa de melhorar a comunidade, construir uma agrovila, escolas públicas, trazer médicos. "Isso foi na década de 70 e, como não havia ninguém que nos abrisse a cabeça, nos demos o que eles pediram."
Segundo Carmo, depois a empresa pediu que todos abandonassem as terras. "O pessoal de Riacho das Pedras só saiu com o toque da água. Um devoto de Bom Jesus colocou o seu oratório na cabeça e, quase coberto de água, saiu chorando. Antes da titulação das nossas terras pelo governo éramos considerados invasores em nossa própria casa."
![]() |
Carmo Joaquim segura título conferido a comunidade |
A comunidade cobra a curto prazo, outras compensações que viriam na forma de instalação de um meio de comunicação com o mundo exterior (o telefone mais próximo fica a 15 quilômetros em Rio de Contas e celular não pega ali) e a criação de um espaço cultural com biblioteca, computador, televisão e vídeo para ser montado um arquivo da comunidade e guardadas as tradições que restaram. A abertura de uma escola até a 8ª série para que não necessário as crianças viajarem todo dia para Rio de Contas e a construção de uma escola agrícola para orientar os jovens a trabalharem na própria terra ao invés de migrarem às grandes capitais.
A briga com a empresa do governo está na Justiça. Porém o horizonte de perspectivas anda distante apesar de soluções tão simples. Simples e difíceis como os contrafortes da Chapada Diamantina. Turistas visitam as comunidades, muitos deles estrangeiros. Querem ver de perto uma cultura que vem se mantendo a duras penas ao longo dos séculos. Uma cultura que, se nada for feito, seremos os responsáveis por cobri-la com as águas do esquecimento. Uma cultura que tem como a palavra falada seu principal condutor.
![]() |
Igreja histórica na cidade de Rio das Contas construída por escravos |
Existem classificadas 724 comunidades remanescentes de quilombos no país, totalizando mais de 2 milhões de pessoas, distribuídas em 30,6 milhões de hectares de terra. Terras que não necessariamente lhes pertencem, apesar da ocupação secular. E como não possuem certificados de propriedade, ficam à margem da sociedade, não podendo, por exemplo, pedir empréstimo em banco para plantar.
Desde 1998, o governo vem conferindo a essas comunidades títulos que atestem a descendência de antigos quilombos e passando para as mãos dos atuais moradores as terras em definitivo. Até agora, 18 comunidades já receberam seus títulos, faltando apenas 706.
Seguem-se abaixo trechos do relatório do DNOCS com relação à construção do açude público e inundação das terras quilombolas:
"O Projeto tornou Livramento hoje um município próspero, com taxa de crescimento superior aos demais municípios vizinhos, abastecendo o mercado interno e exportando excedentes para o mercado internacional.
As ações que fizeram a riqueza da população residente à jusante da obra, motivaram o agravamento da pobreza nos arraiais negros de Barra, Bananal e Riacho das Pedras. A construção da barragem impossibilitou a prática da agricultura nos solos mais férteis do vale, deslocando suas atividades para os tabuleiros nas cotas mais altas onde, além da carência de minerais essenciais ao cultivo, não existe água para a manutenção das culturas.
O enchimento do reservatório do açude público Luiz Vieira eliminou para aquelas comunidades as condições de trabalho que garantiam-lhe, mesmo que de forma rudimentar, sua sobrevivência." (...)
"Privados de suas terras, sem recursos financeiros e assistências, os quilombos negros de Barra, Bananal e Riacho das Pedras dificilmente serão mantidos. A exemplo do arraial de Canudos [também na Bahia], ao levar o desenvolvimento econômico à região, pode-se estar, também, destruindo um outro marco histórico."
Rio de Contas, Setembro de 2000
extraído do http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=9 texto do Leonardo Sakamoto.
extraído do http://www.reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=9 texto do Leonardo Sakamoto.