quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Diretrizes curriculares nacionais mpara a educação da relações etnico raciais e para o ensino de história e cultura afro brasileira e africana

CONSELHO PLENO

RESOLUÇÃO Nº 1, DE 17 DE JUNHO DE 2004. (*)

Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana..


O Presidente do Conselho Nacional de Educação, tendo em vista o disposto no art. 9º, § 2º, alínea “c”, da Lei nº 9.131, publicada em 25 de novembro de 1995, e com fundamentação no Parecer CNE/CP 3/2004, de 10 de março de 2004, homologado pelo Ministro da Educação em 19 de maio de 2004, e que a este se integra, resolve:


Art. 1° A presente Resolução institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, a serem observadas pelas Instituições de ensino, que atuam nos níveis e modalidades da Educação Brasileira e, em especial, por Instituições que desenvolvem programas de formação inicial e continuada de professores.

§ 1° As Instituições de Ensino Superior incluirão nos conteúdos de disciplinas e atividades curriculares dos cursos que ministram, a Educação das Relações Étnico-Raciais, bem como o tratamento de questões e temáticas que dizem respeito aos afrodescendentes, nos termos explicitados no Parecer CNE/CP 3/2004.

§ 2° O cumprimento das referidas Diretrizes Curriculares, por parte das instituições de ensino, será considerado na avaliação das condições de funcionamento do estabelecimento.


Art. 2° As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africanas constituem-se de orientações, princípios e fundamentos para o planejamento, execução e avaliação da Educação, e têm por meta, promover a educação de cidadãos atuantes e conscientes no seio da sociedade multicultural e pluriétnica do Brasil, buscando relações étnico-sociais positivas, rumo à construção de nação democrática.

§ 1° A Educação das Relações Étnico-Raciais tem por objetivo a divulgação e produção de conhecimentos, bem como de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos quanto à pluralidade étnico-racial, tornando-os capazes de interagir e de negociar objetivos comuns que garantam, a todos, respeito aos direitos legais e valorização de identidade, na busca da consolidação da democracia brasileira.

§ 2º O Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana tem por objetivo o reconhecimento e valorização da identidade, história e cultura dos afro-brasileiros, bem como a garantia de reconhecimento e igualdade de valorização das raízes africanas da nação brasileira, ao lado das indígenas, européias, asiáticas.

§ 3º Caberá aos conselhos de Educação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios desenvolver as Diretrizes Curriculares Nacionais instituídas por esta Resolução, dentro do regime de colaboração e da autonomia de entes federativos e seus respectivos sistemas.



Art. 3° A Educação das Relações Étnico-Raciais e o estudo de História e Cultura Afro-Brasileira, e História e Cultura Africana será desenvolvida por meio de conteúdos, competências, atitudes e valores, a serem estabelecidos pelas Instituições de ensino e seus professores, com o apoio e supervisão dos sistemas de ensino, entidades mantenedoras e coordenações pedagógicas, atendidas as indicações, recomendações e diretrizes explicitadas no Parecer CNE/CP 003/2004.

§ 1° Os sistemas de ensino e as entidades mantenedoras incentivarão e criarão condições materiais e financeiras, assim como proverão as escolas, professores e alunos, de material bibliográfico e de outros materiais didáticos necessários para a educação tratada no “caput” deste artigo.

§ 2° As coordenações pedagógicas promoverão o aprofundamento de estudos, para que os professores concebam e desenvolvam unidades de estudos, projetos e programas, abrangendo os diferentes componentes curriculares.

§ 3° O ensino sistemático de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana na Educação Básica, nos termos da Lei 10639/2003, refere-se, em especial, aos componentes curriculares de Educação Artística, Literatura e História do Brasil.

§ 4° Os sistemas de ensino incentivarão pesquisas sobre processos educativos orientados por valores, visões de mundo, conhecimentos afro-brasileiros, ao lado de pesquisas de mesma natureza junto aos povos indígenas, com o objetivo de ampliação e fortalecimento de bases teóricas para a educação brasileira.



Art. 4° Os sistemas e os estabelecimentos de ensino poderão estabelecer canais de comunicação com grupos do Movimento Negro, grupos culturais negros, instituições formadoras de professores, núcleos de estudos e pesquisas, como os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros, com a finalidade de buscar subsídios e trocar experiências para planos institucionais, planos pedagógicos e projetos de ensino.



Art. 5º Os sistemas de ensino tomarão providências no sentido de garantir o direito de alunos afrodescendentes de freqüentarem estabelecimentos de ensino de qualidade, que contenham instalações e equipamentos sólidos e atualizados, em cursos ministrados por professores competentes no domínio de conteúdos de ensino e comprometidos com a educação de negros e não negros, sendo capazes de corrigir posturas, atitudes, palavras que impliquem desrespeito e discriminação.



Art. 6° Os órgãos colegiados dos estabelecimentos de ensino, em suas finalidades, responsabilidades e tarefas, incluirão o previsto o exame e encaminhamento de solução para situações de discriminação, buscando-se criar situações educativas para o reconhecimento, valorização e respeito da diversidade.

§ Único: Os casos que caracterizem racismo serão tratados como crimes imprescritíveis e inafiançáveis, conforme prevê o Art. 5º, XLII da Constituição Federal de 1988.



Art. 7º Os sistemas de ensino orientarão e supervisionarão a elaboração e edição de livros e outros materiais didáticos, em atendimento ao disposto no Parecer CNE/CP 003/2004.



Art. 8º Os sistemas de ensino promoverão ampla divulgação do Parecer CNE/CP 003/2004 e dessa Resolução, em atividades periódicas, com a participação das redes das escolas públicas e privadas, de exposição, avaliação e divulgação dos êxitos e dificuldades do ensino e aprendizagens de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e da Educação das Relações Étnico-Raciais.

§ 1° Os resultados obtidos com as atividades mencionadas no caput deste artigo serão comunicados de forma detalhada ao Ministério da Educação, à Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, ao Conselho Nacional de Educação e aos respectivos Conselhos Estaduais e Municipais de Educação, para que encaminhem providências, que forem requeridas.



Art. 9º Esta resolução entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.


Roberto Cláudio Frota Bezerra
Presidente do Conselho Nacional de Educação

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

“RAÍZES DE ÁRVORES NÃO DÃO SOMBRA”

Raízes
A catira é africana.
O samba é africano.
O blues é africano.

E, se não me engano,
Eu também sou africano
no final.

Assombra essa conversa
metafórica que seja
de raiz não dar sombra
a quem quer que seja

patrões constroem sempre amplas varandas
Virgílio de Mattos

A Caixa Econômica Federal, a política do branqueamento e a poupança dos escravos, por Ana Maria Gonçalves




Uma imagem inédita de Machado
São tanto mais de admirar e até de maravilhar essas qualidades de medida, de tato, de bom gosto, em suma de elegância, na vida e na arte de Machado de Assis, que elas são justamente as mais alheias ao nosso gênio nacional e, muito particularmente, aos mestiços como ele. [...]. Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida, pela euritmia da sua obra.”
O trecho acima é de um artigo do jornalista, professor, crítico e historiador literário José Veríssimo, em artigo no Jornal do Comércio, um mês depois da morte de Machado. Causou espanto em muita gente, inclusive em Joaquim Nabuco, que lhe enviou uma carta: “Seu artigo no jornal está belíssimo, mas essa frase causou-me arrepio: ‘Mulato, foi de fato um grego da melhor época’. Eu não teria chamado o Machado mulato [itálico no original] e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso quando reduzir os artigos a páginas permanentes. A palavra não é literária e é pejorativa, basta ver-lhe a etimologia. O Machado para mim era um branco, e creio que por tal se tornava [sic]; quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego. O nosso pobre amigo, tão sensível, preferiria o esquecimento à glória com a devassa sobre suas origens”. É interessante perceber que o que causa espanto a Nabuco é Veríssimo ter chamado Machado de mulato, e não ter dito que as qualidades de medida, tato, bom gosto e elegância, na vida e na arte, eram alheias aos mestiços como ele, um neto de escravos. Pensamento condizente com um governo brasileiro que discutia a nossa condenação ao atraso e à pobreza de espírito, adquirida via mestiçagem. A solução seria tentar reproduzir, nos trópicos, a pureza de sangue europeia, sonho de consumo antigo das elites portuguesa, na época do Brasil colônia, e brasileira, pelo que parece, até os dias atuais.

A ideia de embranquecimentos dos brasileiros é antiga, e muitos eram abolicionistas não por questões humanitárias, mas porque acreditavam ser necessário estancar o quanto antes a introdução de sangue negro entre os nacionais. Em um ensaio publicado em Lisboa, em 1821, o médico e filósofo Francisco Soares Filho aponta a heterogeneidade do Brasil como o grande empecilho para o país se tornar um Estado Moderno: “Hum povo composto de diversos povos não he rigorosamente uma Nação; he um mixto de incoherente e fraco”. O livro de Andreas Hofbauer, Uma história do branqueamento ou o negro em questão, transcreve vários trechos do artigo de Francisco Soares Filho, “Ensaio sobre os melhoramentos de Portugal e do Brasil”, entre os quais destaco o que fala da necessidade e das vantagens de se promover a miscigenação controlada:
Os africanos, sendo muito numerosos no Brasil, os seus mistiços o são igualmente; nestes se deve fundar outra nova origem para a casta branca. (…) Os mistiços conservarão só metade, ou menos, do cunho Africano; sua côr he menos preta, os cabellos menos crespos e lanudos, os beiços e nariz menos grossos e chatos, etc. Se elles se unem depois à casta branca, os segundos mistiços tem já menos da côr baça, etc. Se inda a terceira geração se faz com branca, o cunho Africano perde-se totalmente, e a côr he a mesma que a dos brancos; às vezes inda mais clara; só nos cabellos he que se divisa huma leve disposição para se encresparem. (…) E deste modo teremos outra grande origem de augmento da população dos brancos, e quasi extinção dos pretos e mistiços desta parte do Mundo; pelo menos serão tão poucos que não entrarão em conta alguma nas considerações do Legislador.”
Hofbauer também cita o artigo de António d’Oliva de Souza Sequeira, “Addição ao projeto para o estabelecimento politico do reino-unido de Portugal, Brasil e Algarves”, de 1821, no qual, além de reforçar as ideias do benefício da mestiçagem de seu conterrâneo, aponta a necessidade de promover a imigração: “Como o Brasil deve ser povoado da raça branca, não se concederão benefícios de qualidade alguma aos pretos, que queirão vir habitar no paiz. (…) E como havendo mistura da raça preta com a branca, (…) terá o Brasil, em menos de 100 annos todos os seus habitantes da raça branca. (…) Havendo casamentos de brancos com indígenas, acabará a côr cobre; e se quizerem apressar a extinção das duas raças, estabeleção-se premios aos brancos, que se casarem com pretas, ou indígenas na primeira e segunda geração: advertindo, que se devem riscar os nomes de “mulato, crioulo, cabôco” e “indígena”; estes nomes fazem resentir odios, e ainda tem seus ressaibos de escravidão (…) sejão todos ‘Portuguezes!”.
(Um breve parênteses: não sei se sou apenas eu que consigo ver semelhanças entre o discurso acima, de 1821, com o de “esqueçamos isso de brancos, negros, amarelos etc… somos todos Brasileiros!”, muito comumente encontrados em artigos de Ali Kamel, Demétrio Magnoli e Yvonne Maggie, por exemplo, apoiados pelo requentamento da teoria da mestiçagem, feito por Gilberto Freyre.)
A ideia de que, em 100 anos, os brasileiros seriam todos brancos, foi atualizada em 1911 por João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional. Nessa época o cientificismo já tinha biologizado o conceito de raça, e o racismo brasileiro se dividia entre duas correntes de pensamento. A segregacionista, que dizia que a mestiçagem já nos tinha posto a perder e que nunca seríamos uma nação desenvolvida; e a assimilacionista, que apostava na salvação através do processo de branqueamento, com imigrantes europeus. Apostando sempre no seu povo, essa última tornou-se a posição oficial do governo brasileiro, que tentava vender, no exterior, a ideia de um país com grande futuro à espera dos europeus; ou à espera de europeus, para ser mais exata. Participávamos de feiras e congressos internacionais, disputando imigrantes com Argentina, Chile e Estados Unidos, e o discurso de Lacerda, representante brasileiro no I Congresso Universal de Raças, em Londres, tenta aplacar o medo dos europeus de compartilharem o Brasil com uma raça inferior: “(…) no Brasil já se viram filhos de métis (mestiços) apresentarem, na terceira geração, todos os caracteres físicos da raça branca [...]. Alguns retêm uns poucos traços da sua ascendência negra por influência dos atavismos(…) mas a influência da seleção sexual (…) tende a neutralizar a do atavismo, e remover dos descendentes dos métis todos os traços da raça negra(…) Em virtude desse processo de redução étnica, é lógico esperar que no curso de mais um século os métis tenham desaparecido do Brasil. Isso coincidirá com a extinção paralela da raça negra em nosso meio“.
A elite intelectual brasileira, formada por literatos, políticos, cientistas e empresários, indignada com as declarações do diretor do Museu Nacional, foi debater nos jornais e revistas. Alguns clamavam que 100 anos era um absurdo de tempo, que o apagamento do negro se daria em muito menos. Outros debochavam do otimismo de Lacerda, como o escritor Silvio Romero, que acreditava que o processo, que todos concordavam ser irreversível, levaria, pelo menos, uns seis ou oito séculos. Mas todos concordavam que era apenas uma questão de tempo, desde que o Brasil continuasse a promover a entrada de brancos europeus, a não fazer nada para integrar os negros que já estavam no país ou para baixar a taxa de mortalidade entre eles, e a dificultar a entrada de novos africanos. De fato, o governo brasileiro financiou a vinda de imigrantes europeus, não fez absolutamente nada que ajudasse escravos e libertos e proibiu a entrada de africanos. Um decreto de 28 de junho de 1890 diz que estava proibida a entrada de africanos no Brasil, e é reforçado por outros em 1920 e 1930, quando os banidos não necessariamente precisam ser africanos, mas apenas parecer. Em 1945, um decreto lei não mais proíbe, mas diz que:
Art. 1o – Todo estrangeiro poderá, entrar no Brasil desde que satisfaça as condições estabelecidas por essa lei.
Art. 2o – Atender-se-á, na admissão de imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia, assim como a defesa do trabalhador nacional.


Imigração europeia
Tal decreto, me parece que foi revogado apenas em 1980. Mas as “características mais convenientes” da nossa ascendência europeia ainda são as desejáveis e estimuladas pelo governo, como nos mostra, exatamente 100 anos depois do pronunciamento de João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional, esse comercial da Caixa Econômica Federal (ver comercial do mês de setembro.
O fato mais visível é o branqueamento de Machado de Assis. Sobre esse assunto, que é longo e complexo, sugiro a entrevista com o professor Eduardo de Assis Duarte e, para quem quiser se aprofundar um pouco mais, a leitura de seu livro “Machado de Assis Afrodescendente: escritos de caramujo.” Veríssimo, atendendo ao apelo de Nabuco, nunca incluiu o artigo em seus livros; e para acabar com qualquer dúvida quanto à mulatice, a certidão de óbito de Joaquim Maria Machado de Assis diz que o grande escritor, da “cor branca”, faleceu de “arteriosclerose”. Questionada pelo ato falho, a assessoria de imprensa da Caixa se manifestou, dizendo que “o banco sempre se notabilizou pela sua atuação pautada nos princípios da responsabilidade social e pelo respeito à diversidade. Portanto, a Caixa sempre busca retratar em suas peças publicitárias toda a diversidade racial que caracteriza o nosso país”. Mas há também outro fato interessante no universo europeizado do comercial: no Rio de Janeiro de 1908, circulam apenas brancos. O comercial, assinado por “Caixa – 150 anos” e “Governo Federal – País rico é país sem pobreza”, apaga completamente as presenças negra e mestiça da capital federal do início do século. Tais atitudes colocam o governo como propagador e vítima das políticas oficiais de branqueamento da população e de ensino deficiente, voltado para o descaso com e o esquecimento do passado escravocrata brasileiro. Tivessem os profissionais envolvidos na criação, produção e aprovação de tal comercial estudado um pouco mais a vida dos africanos no Brasil, não teriam cometido erros tão banais. E tão graves, porque em nome de um governo e de uma instituição que diz ter uma história construída por todos os brasileiros, mas que parece, nesse caso, retratar apenas aqueles brasileiros que sempre foram mais brasileiros do que os outros. A nossa desigualdade entre iguais.
Tivessem esses profissionais dado uma olhada nos levantamentos demográficos da época (embora “raça” não tenha entrado nas estatísticas entre 1890 e 1940 – porque “éramos todos brasileiros”…) ou nas crônicas publicadas em jornais e revistas da época, ou o interesse de conhecerem um pouco melhor o assunto em questão, saberiam que a população negra e mestiça do Rio de Janeiro deveria ser, no mínimo, 30 e 40% do total, mas aparentava ser muito mais. A então capital federal, onde já era numerosa a presença de escravos e libertos, recebeu grandes contingentes de negros e mulatos após a assinatura da Lei Áurea, chegados das áreas rurais e de diversas partes do Brasil. Eles eram, então, a maioria a circular pelas ruas, em busca de emprego, que não havia, ou fazendo bicos, tentando se adaptar à nova realidade. Uma “sociedade movediça e dolorosa”, como nos contam as crônicas de João do Rio, entre tantas outras tão fáceis quantos de achar, caso houvesse interesse.
E por falar em “movediça e dolorosa”, é interessante também perceber como o governo retrata os escravos em outro comercial (ver mês de maio) referente à comemoração dos 150 anos da Caixa, o “Libertos”.
O comercial nos faz acreditar que a “poupança dos escravos” havia sido uma iniciativa progressista da Caixa quando, na verdade, foi um retrocesso nas “leis informais” que regulavam as iniciativas de compra de liberdade, e uma forma de o governo brasileiro, já no final da escravidão, lucrar um pouco mais com a exploração do trabalho escravo. Há um estudo interessante sobre essa poupança, “A poupança: alternativas para a compra da alforria no Brasil (2a metade do Século XIX)”, da historiadora e professora Keila Grinberg, que vou tentar resumir aqui, em meio a outras informações. É importante entender o cenário em que a “poupança dos escravos” foi lançada.
Após a Revolução Industrial, a Inglaterra buscava novos mercados consumidores para seus produtos e, vendo a escravidão com um dos grandes entraves, promulgou unilateralmente o Slave Trade Suppression Act de 1845, conhecido no Brasil como Bill Aberdeen. O ato considerava como sendo pirataria o comércio de escravos entre a África e as Américas, e a Inglaterra poderia abordar qualquer navio em atividade suspeita e liberar a carga humana. Muitos desses africanos foram levados para colônias inglesas no Caribe, onde trabalharam sob condições bem parecidas com a escravidão. Vários navios brasileiros foram aprendidos e destruídos, gerando uma série de incidentes diplomáticos que, em conjunção com outros fatores, levaram o Brasil a parar com o tráfico. Na verdade, a pressão era para que o Brasil obedecesse a Lei Feijó, também conhecida como “lei para inglês ver”, promulgada em 7 de novembro de 1831, que dizia:
A Regência, em nome do Imperador o Senhor Dom Pedro Segundo, faz saber a todos os súditos do Império, que a Assembléia Geral decretou, e ela sancionou a Lei seguinte:
Art. 1º. Todos os escravos, que entrarem no território ou portos do Brasil, vindos de fora, ficam livres.
Essa lei nunca foi obedecida e precisou ser reforçada com a Lei Eusébio de Queirós, aprovada em 4 de setembro de 1850:
Art. 1: As embarcações brasileiras encontradas em qualquer parte, e as estrangeiras encontradas nos portos, enseadas, ancoradouros ou mares territoriais do Brasil, tendo a seu bordo escravos, cuja importação é proibida pela lei de 7 de novembro de 1831, ou havendo-os desembarcado, serão apreendidas pelas autoridades, ou pelos navios de guerra brasileiros, e consideradas importadoras de escravos. Aquelas que não tiverem escravos a bordo, nem os houverem proximamente desembarcado, porém que se encontrarem com os sinais de se empregarem no tráfego de escravos, serão igualmente apreendidas e consideradas em tentativa de importação de escravos.
Inicialmente, a Lei Eusébio de Queirós também teve pouquíssimo efeito, fazendo inclusive com que o tráfico se intensificasse. Como a vida útil de um escravo era curta, e as condições dos cativeiros brasileiros nunca foram ideais para a reprodução, como acontecia, por exemplo nos EUA, os exploradores de trabalho escravo trataram de garantir um bom estoque de peças, começando a pensar, inclusive, que a escravidão, algum dia, poderia ter fim. Quando a Inglaterra intensificou o controle nos mares, começou então o aumento do comércio interno, com as províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, ancoradas na lucrativa economia cafeeira, importando peças do norte e nordeste. Possuir escravos que se tornavam cada vez mais caros, então, começou a ser coisa de “gente grande”, com a diminuição da entrada de peças de reposição e a crescente demanda da indústria cafeeira, base da economia brasileira da ápoca. O Brasil passava por grandes transformações, e outras duas leis importantes também foram promulgadas em 1850, a Lei das Terras e a lei do Código Comercial, ambas com profundas ligações com a escravatura.
Começando a se pensar pela primeira vez em um Brasil sem escravos, a Lei das Terras defendia os interesses dos grandes latifundiários, garantindo-lhes o direito de regularizar a posse das terras que ocupavam. As terras não ocupadas passaram a ser do Estado e só poderiam ser adquiridas em leilões, com pagamento à vista, impossibilitando que ex-escravos (e possíveis colonos, porque já se discutia uma política de imigrações), quando libertados, se tornassem proprietários através de ocupações.
O Código Comercial regulamentava a criação de sociedades anônimas e comerciais, uma necessidade por causa das reorientações na economia brasileira. Não tendo mais condições de comprar escravos, a gente “média” e “miúda” começou a ter outras necessidades de crédito e a se interessar por outros bens de consumo, aumentando a importação de bens estrangeiros. Em 1851, por exemplo, surgiu no Rio de Janeiro o Banco do Commercio e da Indústria que, junto com outros bancos, passou a receber depósitos e a emprestar dinheiro. Foi esse banco que, em 1853, depois de uma fusão com o Banco Commercial do Rio de Janeiro, deu origem ao Banco do Brasil. Segundo Keila Grinberg, “(…) Com isso, o crescimento das atividades comerciais no país, devido principalmente à prosperidade dos negócios do café, foi facilitado pelo aumento da emissão de moeda, e pela autorização, por parte do governo imperial, da realização de várias operações comerciais pelos bancos”. Em 1857 já havia vários bancos oferecendo esses serviços, mas a crise no setor cafeeiro e o grande número de instituições privadas, levou o governo a centralizar a atividade bancária, principalmente as de poupança e crédito, através da Lei dos Entraves, de 1860. Foi através dessa lei que o Governo Imperial criou a Caixa Econômica, que entrou em atividade em 1861 como o primeiro banco que receberia “as pequenas economias das classes menos abastadas”, nos moldes de várias instituições privadas de grande sucesso nos EUA e na Europa.
As Caixas prestariam os serviços de depósito em poupança e de empréstimos tendo como garantia a penhora de bens. Com isso, o governo buscava “centralizar no Estado as economias dos poupadores, de pequenos a grandes, de modo que o montante arrecadado pudesse contribuir para o desenvolvimento da infra-estrutura do país, como aconteceu nos Estados Unidos, onde a poupança alavancou o investimento em ferrovias, centros de tratamento de água e esgoto e canais”. A princípio, a arrecadação não foi muito grande, ao contrário da procura por empréstimos, e só melhorou um pouco a partir de 1864, com a quebra de várias instituições concorrentes.
A Lei do Ventre Livre, de 1871, reconheceu, entre outras coisas, o direito do escravo formar pecúlio. Na verdade isso já acontecia havia muito tempo. Escravos se reuniam em associações (Juntas ou Irmandades) auto-regulamentadas e contribuiam para um fundo comum que, entre outras coisas, servia para a compra de cartas de alforrias de seus associados. A novidade da lei é que, diferente do que acontecia antes, se o escravo tivesse dinheiro suficiente a carta de alforria não poderia mais ser negada pelo seu dono. A Caixa Econômica então passou a aceitar depósitos de escravos, mas a caderneta de poupança teria que ser aberta em nome dos seus donos, porque o decreto de fundação, de 1861, dizia:
“Não serão admittidos, como depositantes ou abonadores, os menores, escravos, e mais indivíduos que não tiverem a livre administração de sua posse e bens”
E para que o escravo tivesse certeza disso, de que não era dono daquele dinheiro e daquela “poupança do escravo”, Keila Grinberg nos conta que “todas as cadernetas de escravos eram riscadas onde aparecia a palavra ‘senhor’ antes do espaço destinado à redação do nome do poupador. Para que não restasse dúvidas de que poupar não fazia de nenhum escravo, um senhor.
Isso significa que a “poupança dos escravos” criada pela Caixa Econômica Federal não é nenhuma novidade entre as modalidades de se juntar dinheiro para a compra da carta de alforria, e ainda é um retrocesso, no sentido de proibir depósitos em nome de escravos. Caixas Econômicas não estatais, surgidas na década de 1830 na Bahia, em Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro, seguindo o modelo das caixas existente em outros países escravistas das Américas, não tinham essa proibição. Então, o que a Caixa Econômica Federal fez, em 1872, ao oficializar a “poupança dos escravos”, foi permitir e reafirmar que o controle do dono sobre o escravo, com a tutela do Estado, fosse exercido inclusive sobre algo que, de comum acordo entre dono e escravo poderia ficar, anteriormente, sob a responsabilidade do escravo. Antes de oficializar essa proibição, inclusive, a própria Caixa “aceitava” depósitos de escravos, como prova a existência da caderneta de poupança de número 12.729: “mesmo à margem da lei, entre 1867 e 1869, a escrava Luiza depositou religiosamente 5 mil réis por mês com o aval de D. Antonia Luiza Simonsen, sua senhora’, escreve Grinberg. A poupança dos escravos de ganho coloca-os novamente sob a tutela de seus senhores.


Escravos de ganho nas ruas do Rio, por Debret
Luiz Carlos Soares nos dá uma ideia da vida de um escravo de ganho no Rio de Janeiro, em sua tese “Urban Slavery in Nineteenth Century Rio de Janeiro”: “Uma parcela considerável desses cativos [que andavam pelas ruas do Rio] era constituída pelos escravos de ganho. Estes desenvolviam as mais diversas modalidades de comércio ambulante, carregando as suas mercadorias em cestos e tabuleiros à cabeça, ou transportavam, sozinhos ou em grupos, os mais variados tipos de cargas, ou ainda ofereciam os seus serviços em quaisquer eventualidades, até mesmo no transporte de pessoas em seus ombros pelas ruas da cidades nos dias chuvosos ou carregando em suas cabeças barris com os dejetos das residências que à noite eram jogados ao mar.” Profissões mais especializadas, como sapateiros, barbeiros, joalheiros, ou até mesmo mendicância e prostituição, estavam entre as atividades exercidas pelos escravos de ganho. São esses os escravos retratados no comercial “Liberdade” da Caixa, todos saudáveis, “higienizados”, sorridentes e bem tratados. A realidade, no entanto, era bem outra. Alguns realmente conseguiam se dar bem, sendo capazes de juntar boa quantidade de dinheiro; mas eram exceções. O que valia a pena, nessa modalidade, era o escravo ter um pouco mais de liberdade em relação aos escravos rurais ou domésticos, sob maior vigilância. Os escravos de ganho eram mandados para a rua por seus senhores, onde deveriam trabalhar para pagar o “jornal”, ou seja, uma quantia diária, semanal ou mensal estipulada pelo dono. Era o excedente desse jornal, se houvesse, que os escravos poderiam poupar para empregar no que bem quisessem, desde o complemento à alimentação deficiente, roupas, aluguel de um cômodo para morar longe do senhor, ou a carta de alforria. E era esse excedente que, em nome do dono, poderia ser depositado na “poupança dos escravos”, na esperança de, um dia, ser suficiente para comprar a liberdade; o que se tornava cada vez mais difícil.
A partir de 1850, com a venda maciça de escravos para as zonas cafeeiras, o número de escravos diminuiu consideravelmente na cidade do Rio de Janeiro. O recenseamento realizado em 1872, ano de lançamento da poupança de escravos, conta que eles eram, ao todo, 37.567, dos quais 5.785 eram criados (escravos de aluguel para serviços domésticos) e jornaleiros (de ganho). Escravos de ganho já não eram bom negócio. Em alguns setores mais lucrativos, como o de transporte, eles estavam perdendo espaço para trabalhadores livres, melhor organizados e de melhor aparência; em sua maioria imigrantes pobres portugueses. Esse é o cenário quando a Caixa Econômica Federal decide aceitar dinheiro de trabalho escravo – desde que em nome do donos, é sempre bom lembrar -. Com a alta sucessiva do preço, e com seus donos usando métodos legais e ilegais para manter os escravos que possuíam, as compras de cartas de alforria se tornaram raríssimas depois da Lei de 1871. “Que não restem dúvidas: a alforria custava caro. Para se ter uma ideia, entre 1860 e 1865 o preço médio pago por um escravo para ficar livre variou entre 1:350.000 réis e 1:400.000 réis, mas chegou a mais de 1:550.000 réis em 1862. Evaristo, depois de três anos de poupança acumulou irrisórios 8.100 réis. Luiza, aquela que depositava com consentimento da sua senhora Antonia Luiza Simonsen, chegou a pouco mais de 200.000 réis”, lembra Grinberg.
Provavelmente, foram raríssimos os que conseguiram comprar suas cartas de alforria através das cadernetas dos escravos, como a escrava Joana do comercial. Aplicados no banco, os recursos destinados à compra de sonho serviam para aumentar os lucros da Caixa que, segundo o estatuto de criação, podia utilizar o dinheiro das poupanças para fazer empréstimos, a juros, através do Monte de Socorro, com as penhoras. Talvez isso também pudesse ser chamado de exploração de mão de obra escrava. Da qual, hoje, a Caixa de orgulha, a ponto de apresentar como um dos grandes feitos a ser comemorado em seus 150 anos de existência. Ironicamente, ou não – pois realmente quero acreditar que é fruto da profunda ignorância histórica e da falta de sensibilidade -, o confessional foi exibido no mês de maio, para ser potencializado e remetido à Lei Áurea. Coisas da propaganda, que talvez pudesse ser usada para nos responder duas perguntas:
- O que foi feito do dinheiro dessas cadernetas de poupança quando aconteceu a abolição? O dinheiro era dos escravos, o excedente do que tinham que pagar ao dono, mas não estava no nome deles. Eles conseguiram recuperar essas economias?
- Em 1872, quando foi criada a “caderneta dos escravos”, dirigida aos escravos de ganho, já fazia 41 anos que o tráfico atlântico de escravos estava proibido. Visto que a maioria dos escravos de ganho era composta por africanos (Luiz Carlos Soares nos informa que, na segunda metade do XIX, na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, dos 2.869 pedidos de concessão de licença para trabalhar ao ganho, 2.195 eram para africanos), a Caixa, antes de aceitar a abertura das cadernetas, checava se tinham entrado legalmente no Brasil (é bom lembrar que, em 1900, a expectativa de vida do brasileiro era de 33,4 anos, sendo a dos escravos bem menor que a dos não-escravos), ou era cúmplice dos que tinham sequestrado, capturado e mantido ilegalmente africanos em cárcere privado e trabalhos forçados, conforme as leis de 1831 e 1850?
Seria bom que a Caixa Econômica Federal investigasse a possibilidade de ter cometido erros e, se for o caso, se retratasse. Pelo branqueamento de Machado e por ter lucrado, talvez ilegalmente, com o dinheiro dos escravos, e fazer disso motivo de orgulho. Se não por toda a população afrodescendente brasileira, pelos seus mais de 14.000 funcionários homenageados em um belíssimo comercial comemorando o Dia da Consciência Negra.
Para que eles não se sintam usados. Para que nós não nos sintamos enganados por meras e belas campanhas de marketing. Para que este país comece a conhecer e respeitar sua História. Para que as palavras de sua assessoria não sejam propaganda enganosa: “O banco sempre se notabilizou pela sua atuação pautada nos princípios da responsabilidade social e pelo respeito à diversidade.” Que assim seja!


     Fonte:  http://revistaforum.com.br/idelberavelar/

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Más noticias

As boas notícias sobre África são ruins para os negócios
Fiona Leonard

http://www.rebelion.org/noticia.php?id=133516

Resumo em português:
Escrever uma história positiva sobre a África seria ruim para as estatísticas de leitores de um jornal, disse um colunista do The New York Times.
''Já é muito difícil ter leitores interessados na África (cada vez que escrevo sobre África minha coluna desaba), e uma coluna com boas notícias, não ligada a uma crise (Benin prospera!), francamente terá zero leitores.'' (N. Kristof, NYT, 1/7/11)
Os comentários de Kristof apareceram há poucos dias, juntamente com um artigo que ele escreveu: ''Uma aventura africana e uma revelação''. O artigo descreve uma viagem recente a ''cinco países particularmente malditos''. A única luz positiva era a tecnologia - energia solar e celulares. No fim, repete um clichê de nativos selvagens/felizes: ''as girafas e os locais são incrivelmente acolhedores e o progresso no momento é efervescente''.
Muitas ONGs sofreriam realmente se os jornalistas começassem a escrever boas notícias. Quando CARE International levou um escritor a um país africano, não mostraram-lhe lugares ricos, essa não era a história que pretendiam que fosse contada. O orçamento da ajuda está encolhendo e os governos estão sendo pressionados a gastar no país e não no exterior.
A resposta para ''como cobrir a África'' está em complicar mais do que em simplificar a história. Explicar as complexidades da questão. África é um continente não um país.
Em vez de ''doar dinheiro'' à África por razões humanitárias, chamemos as coisas pelo seu nome e admitamos que os governos estrangeiros estão investindo. Sejamos honestos e reconheçamos que a ajuda está relacionada ao comércio e a imperativos econômicos a longo prazo. Alguns deles são embaraçosamente comerciais, como querer o acesso das companhias mineradoras.
É hora de começar a contar uma história diferente.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Efeito contrário


Política pública baseada na raça estimula diferença

Estudo recente publicado pelo IBGE objetiva passar a imagem de que, apesar de a cor influenciar bastante a vida dos cidadãos brasileiros, a maioria não tem dificuldade em reconhecer a própria raça. Em um momento em que todos se chocam com a notícia de que já existem diversos Tribunais Raciais em funcionamento no Brasil, esta notícia não é obra do acaso. Objetiva-se minimizar as dificuldades existentes no Brasil sobre a identificação da raça.
Sobre a impossibilidade de determinar quem é negro no Brasil, destaco relevante estudo conduzido por Sérgio Pena, da UFMG, denominado Retrato Molecular do Brasil. Na ocasião, chegou-se à conclusão de que, além dos indivíduos autodeclarados pretos e pardos, existem no Brasil mais 30% de afrodescendentes, dentre aqueles que se declararam brancos, por conterem no DNA a ancestralidade africana, principalmente a materna, devido à intensa miscigenação e independentemente do fenótipo apresentado. O trabalho realizado por Pena questiona as estatísticas sobre a composição étnica do País. Para ele, os números seriam imprecisos pois muitos dos que se declararam brancos migrariam para a categoria de mestiços, se o DNA fosse decodificado.
Sobre a possibilidade de se determinar cientificamente um grau mínimo de africanidade para cada brasileiro, a ponto de legitimar os descendentes de africanos a serem beneficiados por políticas afirmativas, a explicação de Pena é deveras precisa, e, por isso, merece a transcrição: “a ancestralidade, após os avanços do Projeto Genoma Humano, pode ser quantificada objetivamente. Implementamos em nosso laboratório exames de marcadores de DNA que permitem calcular um Índice de Ancestralidade Africana, ou seja, estimar, para cada genoma humano, qual proporção se originou na África. Recentemente publicamos (...) um estudo demonstrando que no Brasil, em nível individual, a cor de um indivíduo tem muito baixa correlação com o Índice de Ancestralidade Africana. Isso quer dizer que, em nosso país, a classificação morfológica como branco, preto ou pardo significa pouco em termos genômicos e geográficos, embora a aparência física seja muito valorizada socialmente. A interpretação dos achados de nossa pesquisa é que a população brasileira atingiu um nível muito elevado de mistura gênica. A esmagadora maioria dos brasileiros tem algum grau de ancestralidade genômica africana. Poderia a nossa nova capacidade de quantificar objetivamente, através de estudos genômicos, o grau de ancestralidade africana para cada indivíduo fornecer um critério científico para avaliar a afrodescendência? A minha resposta é um enfático não. Tentar usar testes genômicos de DNA para tal, seria impor critérios qualitativos a uma variável que é essencialmente quantitativa e contínua. A definição sobre quem é negro ou afro-descendente no Brasil terá forçosamente de ser resolvida na arena política. Do ponto de vista biológico, a pergunta nem faz sentido”.
Confirma-se assim a tese de Gilberto Freyre de que a população brasileira é uma mistura do europeu, do índio e do africano. Dessa forma, a intensa miscigenação brasileira termina por eliminar a eficácia de programas afirmativos nos quais a raça funcione como critério exclusivo de integração, porque não há como determinar quem, efetivamente, é negro no Brasil.
Retroceder à utilização de critérios objetivos (exame de sangue) para determinar o grau de ancestralidade, por outro lado, parece-nos totalmente fora de consideração. A política afirmativa que vier a ser adotada no Brasil tem de vencer o desafio da legitimidade e ser adequada, exigível (não haver um meio menos ofensivo aos direitos fundamentais) e ter bônus maior do que o ônus em relação à implementação da medida (princípio da proporcionalidade em sentido estrito).
Para se tentar flexibilizar esse debate praticamente insolúvel — saber quem é negro no Brasil —, ao mesmo tempo em que também se procura combater outra barreira, talvez a principal a impedir a ascensão do negro, faz-se necessário um novo modelo de ações afirmativas, baseado em critérios próprios para a realidade brasileira. Propõe-se, assim, a conjugação de dois fatores: escola pública e renda mínima, visando a garantir maior legitimidade ao debate, a menor possibilidade de utilização da má-fé, à diminuição da possibilidade de discriminação reversa e, finalmente, ao melhor atendimento aos princípios da igualdade e da proporcionalidade, integrando maciçamente os negros, pois estes são 70% dos pobres do Brasil, sem correr o risco da racialização do país.
Roberta Fragoso Menezes Kaufmann é procuradora do Distrito Federal, professora de Direito Constitucional e Direito Administrativo na Escola da Magistratura do DF e no Instituto de Direito Público. É autora do livro Ações Afirmativas à Brasileira: necessidade ou mito? Uma análise histórico-jurídico-comparativa do negro nos Estados Unidos da América e no Brasil, lançado pela Livraria dos Advogados.
 Fonte:Revista Consultor Jurídico, 28 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Kanga

Kikulacho kimo maungoni mwako: Kanga, da tradição à contemporaneidade
Sofia Vilarinho

http://www.buala.org/pt/a-ler/kikulacho-kimo-maungoni-mwako-kanga-da-tradicao-a-contemporaneidade

Capulana no sul de Moçambique, Kanga no Quénia e Zanzibar, pagne no Congo e Senegal, lappa na Nigéria, leso em Mombaça. Um pano rectangular geralmente de 150 cm por 110 cm, estampado industrialmente em toda a sua superfície e que se diferencia de país para país pelos motivos africanos de cores contrastantes, formas antropomórficas, zoomórficas ou abstractas e padrões geométricos e figurativos variáveis que ilustram a cultura, a tradição, a contemporaneidade, os rituais, as ideias, a emoção, o silêncio, a revolta, a luta, a paixão. As Kangas são a "voz do silêncio feminino" (Beck, 2005).

A Kanga coexiste, no mesmo espaço e tempo, com a mulher do Leste Africano, é um símbolo tão gritante como o do poeta Malangatana "quem é que rasgou a capulana encarnada do templo negro?(...)" [1]
Graficamente, uma Kanga é definida por três partes: a margem (em swahili: Pindo), o motivo central(swahili: mji) e o provérbio inscrito (swahili: ujumbe ou jina).[2] Os provérbios são, em si, estratégias extraídas da experiência que propiciam, por um lado, o conhecimento sobre a acção e, por outro, a inspiração ou a motivação para a acção.
Geralmente a Kanga é utilizada como vestuário tradicional ou para modelar um look mais europeu, mas também pode ser utilizada para outros fins: nos rituais de passagem (interessante o uso da Kanga no ritual de circuncisão masculina); nos funerais para cobrir o defunto (ntehe é o nome desta capulana especial); para carregar bebés; para filtrar a água ou como saco para a merenda; para felicitar o noivado (capulana Kisutu), o casamento ou o nascimento; para esperar o marido (geralmente esta é de cor amarela e verde ou xadrez pouco garrido no sul de Moçambique); pelos curandeiros nas suas práticas (de cores branco, vermelho e preto, é só usada pelos curandeiros).

Estes têxteis têm um papel muito importante na comunicação mas também na definição do status e do poder, pois quanto maior for a riqueza de uma mulher mais kangas elas guardam nas arcas.
Compradas ou herdadas, as kangas fazem parte das rotas comerciais e são uma das moedas de negociação desde o século XIX. Figuras importantes no comércio dos panos em África são as Nana Benz, as mulheres com uma forte autonomia económica que, desde os anos 60, introduziram novos desenhos no mercado, sendo  um porta-voz de tendências que emergem das e nas ruas, resultantes de acontecimentos políticos, e sociais, de provérbios, de histórias de vida, de inovações tecnológicas, de marcas europeias dominantes.

ver documentário aqui

Reza a história que os primeiros estampados tinham uma margem e um padrão de bolinhas sobre um fundo escuro e que os compradores rapidamente começaram a chamar a esta roupa de Kanga, em lebrança de um pássaro preto e branco da Guiné, com plumas sarapintadas. De acordo com registos, diz-se que esta evolução foi da autoria de um comerciante de Mombaça Kaderdina Hajee Essak, também conhecido por Abdulla. O design de suas Kangas era formalmente distinto pela marca "K.H.E- mali ya abdulla"[2] e incluía sempre um provérbio, aforismo ou slogan, inicialmente em letras árabes e depois em letras romanas. Narra também a história que a Kanga surge do cruzamento das rotas comerciais entre Portugal (desde 1499 os portugueses estabelecem aqui uma missão católica e um porto de negociações marítimas) e a Índia - na zona de Mombaça e Zanzibar - e da costumização dos lenços portugueses pelas mulheres swahili (a partir  de 1900), quando costuraram os lenços de forma a obter um rectângulo capaz de contornar o corpo (3 por 2). O mercado dos panos era também controlado pelos indianos, que prontamente responderam às tendências da moda e começaram a produzir um único pano inspirado no sari e no lenço português, mas que apelava ao gosto estético africano.

Comparação lenço português, Inidian, e Kanga

Num estudo mais aprofundado e indagando sobre estes registos, conclui-se que a criação da kanga está ligada a três factores preponderantes:
Às mulheres Manyema nas rotas de escravos e marfim da África Central para a costa Swahili (Africa Austral). Segundo a autora McCurdy, Manyemaeram mulheres poderosas, waungwana (livres), autónomas (também sexualmente - ver Encyclopedia of prostitution and sex work, pp. 83) e com habilidade para trabalhos manuais. Certas fontes revelam que estas mulheres ocupavam parte do seu tempo de viagem, do Congo para Zanzibar, a criar novos grafismos têxteis através da união de vários padrões que davam origem a outros de uma riqueza estilística única e, por isso, uma fonte de inspiração pela sua exuberância e originalidade.
A autora argumenta ainda que - e de acordo com registos locais - as mulheres swahili vestiam somente Kanini (pano de algodão cor azul escuro - indigo) ou pano branco antes da chegada das mulheres Manyema a Zanzibar. De notar que este facto vai justificar o que atrás foi referido sobre a apropriação dos lenços portugueses pelas mulheres de Zanzibar e a tendência para o processo de imitação -tão característico no mundo da Moda - e que desde sempre contagiou o encontro dos povos resultando num hibridismo de estilos. A Kanga torna-se um fashionable item.
A abolição do tráfico de escravos (em 1878, foi definitivamente abolido em todo o império português), permitiu que o algodão, anteriormente primazia de reis e chefes de tribos, passasse, a partir de meados do seculo XIX, a ser adquirido pelas pessoas comuns, o que prenuncia o novo estatuto social e, com ele, outras noções de liberdade, do corpo e sua propriedade.[1] A apropriação dos panos e a utilização dos estampados é o símbolo gritante dessa mesma liberdade. Contudo, a libertação dos escravos leva ao aumento do movimento de missionários, tanto cristãos como islâmicos, que induzem um outro olhar sobre o corpo, apelando à modéstia.

O terceiro  factor que induz o aparecimento da kanga relaciona-se com a Revolução Industrial (1760) e a fervorosa abertura dos mercados na segunda metade do século XIX (Europa, Índia e Arábia). A época Victoriana é caracterizada pela hegemonia mundial britânica e a expansão colonialista. A produção textil artesanal conduzida pelos indianos e árabes passa, após a revolução industrial, a ser dominada em regime industrializado, pelos europeus. Deste domínio destacam-se duas fortes economias, a Inglaterra e a Holanda, que comandaram, desde meados do século XIX, a indústria de produção de wax print textiles [1] na região Oeste Africana.

E a Kanga de hoje?

Da tradição à contemporaneidade, a Kanga foi e continua a ser, um objecto que acompanha o ritmo da transculturalidade que influencia  a dinâmica presença - ausência da mulher africana.
O design dos padrões evoluiu e espelha os grafismos da modernidade, da evolução tecnológica e da hegemonia ocidentalizada. Num processo contante de (re)negociação de identidades e homogeneização - tão caracteristico da era global - o uso tradicional da Kanga passa a ser substituído pela roupa importada e oriunda da caridade europeia e /ou americana para o continente africano ou pela apropriação de um pano modelado em forma de camisa, vestido, saia. Se, por um lado, o mercado de segunda-mão, concebe livre arbítrio ao consumidor, permitindo-lhe adquirir exclusivos e originar - e não imitar - o Look - peça-única, por outro,  assiste-se  um processo de homogeneização e poder da indústria da Moda Europeia, cujo o ex-líbris culmina no well-dresssed e num novo sigificado de ser "cosmopolita."[2]

As fronteiras da autenticidade e da tradição diluem-se e dão lugar à fabricação de culturas e objectos  híbridos. Assiste-se a um puzzling cultural que posiciona a kanga contemporânea nessa fronteira, entre o hit do design de motivos de coca-cola ou dos telemóveis Nokia, as inscrições em inglês tão apelativas aos turistas da costa swahili e o modelling contemporâneo apresentado na passerelle de Nova Iorque - Verão de 2011.
Os africanismos fashionable são o retrato do carácter nómada inerente ao objecto.

[1] Wax prints textile: técnica de estampagem textil originária da Indonésia e que consiste na aplicação de cera de forma a "resistir" o tinto nas zonas onde esta é aplicada. Esta cera é desenhada no tecido de acordo com o projecto/desenho a ser elaborado. Duas grandes empresas de produção destes estampaos são a Vlisco (Holanda)  e a. O estampado feito pela industrias holandesas (Dutch wax print) foi pioneiro na aplicação de resina que permitia obter o estampado no direito e avesso do tecido e teve um grande sucesso na região do Ghana (Gold Coast), ao contrário do que se previa na Indonésia (1º mercado alvo dos holandeses).
[2] O apogeu desta dominação é o fenómeno dos Sapeurs do Congo.
[1] Com a abolição da escravatura e a libertação dos escravos dá-se também uma intensa campanha religiosa, por um lado o cristiansmo por outro o islamismo. Missionarios, militares e oficiais do governo tornam-se os novos agentes/actores na introdução de outros  conceitos de exibição do corpo e das partes dele que apela à modestia. De notar que os estampados nas kangas traduzem a inluência islâmica  e muitas das frases são a enunciação da opressão feminina imposta pelas leis do corão.
[2] íbidem
[1] Torcado, Maria de Lourdes (2004), Capulanas & Lenços à Moda de Moçambique, Ed.Missanga,Maputo, pág.6
[2] A maioria das capulanas em Moçambique não apresentam mensagem. Não querendo menosprezar o interesse pela capulana (que aliás é o objecto de estudo da minha investigação de doutoramento em curso) encontro na kanga, típica em Zanzibar, Mombaça e  Quénia, uma maior fieldade e riqueza histórica quanto à preservação das tradições.


 Fonte.http://www.casadasafricas.org.br/

O Negro na Telenovela Brasileira

 O Negro na Telenovela Brasileira
A Negação do Brasil - O Negro na telenovela brasileira documentário de Joel Zito autor do livro de mesmo nome.Duração de 1 ;30 minutos feito pelo ministério da cultura. Vale a pena assistir no link abaixo!
 
http://youtu.be/Z9B9ryJP4t0

domingo, 22 de maio de 2011

Cultura afro e indígena no ensino público são temas de debate com o governo

Cultura afro e indígena no ensino público são temas de debate com o governo

Plenária discutiu as formas para a implantação da Lei 11.645/08, na rede de ensino do Amapá. A medida foi sancionada pela legislação nacional em 2010.
O governador do Amapá, Camilo Capiberibe, participou, nesta quarta-feira, 18, no Centro de Convenções João Batista Azevedo Picanço, de uma Audiência Pública que debateu a implantação da História e Cultura Afrodescentente e Indígena na rede de ensino do Estado, de acordo com a determinação da Lei 11.645/08, de 2010. A plenária foi proposta pela deputada estadual Cristina Almeida (PSB). Cerca de 300 pessoas compareceram à plenária.
Durante o evento, que contou com a presença do vereador Washington Picanço, representantes da Secretaria de Estado da Educação (Seed), Secretaria de Estado da Cultura (Secult), Secretaria Extraordinária de Políticas para Afrodescendente (Seafro), Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas (Sepi), Secretaria e associações ligadas ao movimento negro do Amapá.
Segundo o governador, a inclusão da História e Cultura Afrodescentente e Indígena no ensino público é uma mudança positiva. Camilo Capiberibe afirmou que somente um pequeno capítulo da contribuição dos dois povos para a constituição do Brasil foi contado.
“Sempre apoiei a integração da cultura indígena e afrodescendente ao ensino público, desde a época que eu fui deputado estadual. É muito importante reconhecer e valorizar a diversidade da cultura brasileira, da qual também fazem parte da história indígena e negra”, disse o governador.
Regularização de terras
De acordo com o governador, outra direito da população negra do Amapá é a legalização de suas terras. Camilo Capiberibe disse que irá regularizar 22 glebas que o governo federal passou para o Estado e contratar antropólogos para a legalização das áreas quilombolas.
“É meu dever como governador fazer o que não foi feito antes. Assumo o compromisso com os povos quilombolas, eles terão a legalização de suas áreas, pois contrataremos antropólogos para tal, já que o laudo técnico é que impede a titulação dessas áreas”, pontuou o governador.
A Lei
A Lei 11.645/08, de 2008, que inclui o ensino de História e Cultura Indígena, substituiu a Lei 10.639/03, de 2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio. Com a segunda resolução, as duas culturas serão obrigatórias no ensino brasileiro.
“Meu compromisso é apoiar a Seed no que for preciso para a inclusão das duas culturas no currículo escolar. Quero que digam, daqui há três ou quatro anos, que um pequeno Estado da Amazônia foi um dos primeiros a implantar a História e Cultura Afrodescendente e Indígena em seu ensino”, enfatizou Camilo Capiberibe.
Elton Tavares
Assessor de Comunicação Social
Secretaria de Estado da Comunicação Social

Fonte : http://www.correaneto.com.br/site/?p=8278

terça-feira, 17 de maio de 2011

Aprovada criação do Ano Estadual das Populações Afrodescendentes

Redação SRZD | Rio+ | 30/04/2011 16h18
A Assembléia Legislativa do Rio (Alerj) aprovou esta semana o projeto de lei nº 44/2011, de autoria dos deputados Sabino e Gilberto Palmares, que institui o ano de 2011 como o Ano Estadual das Populações Afrodescendentes e das Políticas de Promoção da Igualdade Racial. A poucas semanas do dia em que se comemora a abolição da escravatura, o projeto tem objetivo de fortalecer o compromisso político de erradicar a discriminação e promover maior consciência e respeito à diversidade e à cultura.

Em dezembro de 2010, a Assembléia Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU) declarou oficialmente, que 2011 seria o Ano Internacional das Populações Afrodescendentes, pois segundo o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, os afrodescendentes estão entre as pessoas mais afetadas pelo racismo. No Brasil, a ideia do Ano Estadual das Populações Afrodescendentes é buscar medidas nacionais e a cooperação regional e internacional em benefício da população afrodescendente, visando alcançar a participação e integração em todos os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais da sociedade.

O projeto discutirá alguns pontos como o acesso universal e igualitário ao Sistema Único de Saúde (SUS) para promoção, proteção e recuperação da saúde dessa parcela da população; os direitos fundamentais das mulheres negras; o reconhecimento ao direito à liberdade de consciência e de crença dos afro-brasileiros e da dignidade dos cultos e religiões de matriz africana praticadas no Estado do Rio de Janeiro; o sistema de cotas que buscará corrigir as inaceitáveis desigualdades raciais que marcam a realidade brasileira, entre outros.

O Poder Executivo, por meio dos órgãos competentes, coordenará a programação dos eventos institucionais comemorativos, podendo criar parcerias com entidades e instituições públicas ou privadas, visando o apoio e à promoção de atividades alusivas ao importante fato cultural e histórico.




fonte;   
http://www.sidneyrezende.com/noticia/129786

sábado, 14 de maio de 2011

O 13 de Maio

Bembé de Santo Amaro comemora 120 anos de resistência



No dia 13 de maio, a cidade de Santo Amaro comemora os 120 anos do Bembé. São 120 anos do começo de uma luta que permanece até hoje. A luta pela liberdade do povo negro escravizado que continua com a luta pela inclusão social.
Um dia após a assinatura da Lei Áurea (13 de maio de 1888) os senhores de engenho de Santo Amaro, inconformados com o fim do regime escravagista, pressionaram as suas lideranças parlamentares para que a lei fosse revogada e com ajuda do aparelho policial da cidade tentaram manter o sistema de trabalho escravo na cidade. Porém os negros libertos - conhecidos pejorativamente como os treze de maio - e alguns simpatizantes da causa, continuaram o movimento social para libertação daqueles que ainda permaneciam encarcerados. Assim, um ano depois, os negros decidiram comemorar na praça do mercado o aniversário da abolição, sem agradecimentos a princesa Isabel ou parada cívica, mas com muita festa e manifestações do candomblé saudando os Orixás, assim nasceu o Bembé (uma contração da palavra Candomblé). Durante os festejos são colocados diversos presentes para Iemanjá que logo após a festa são levados em oferenda a rainha do mar.
Muito mais que uma festejo anual, a comemoração do 13 de maio simboliza uma luta histórica do negro em defesa da liberdade física e religiosa, reafirmando a necessidade de reparação social para um povo excluído da sociedade por muitos anos e que nos dias atuais continuam travando batalhas contra o pior dos inimigo: o preconceito racial velado que permeia todo o corpo social do nosso país.


 Fonte http://nasondasdepaulo.blogspot.com/feeds/posts/default?orderby=updated
Veja as fotos sobre a festa do Bembé no link 

http://www.flickr.com/photos/denisse_salazar/4614978603/in/set-72157624079192062/

terça-feira, 19 de abril de 2011

Cores da integração

Cores da integração

Ano Internacional do Afrodescendente é oportunidade para reflexão sobre avanços e desafios no Brasil. CUT adotou o tema para o 1º de Maio
Por: Redação
Publicado em 12/04/2011
Cores da integração
(Foto:Marcello Casal Junior/Agência Brasil)
Cinco meses antes do término de seu mandato, durante o primeiro encontro de cúpula do Brasil com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), em Cabo Verde, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que seu sucessor, fosse quem fosse, estaria “moralmente, politicamente e eticamente” comprometido a “fazer mais” pela relação Brasil-África. Essa preocupação se reforça com o estabelecimento de 2011, pelas Nações Unidas, como Ano Internacional do Afrodescendente.
O presidente estadual da CUT de São Paulo, Adi dos Santos Lima, lembra que o país concentra mais de 90 milhões de afrodescendentes. “No entanto, essa consciência ainda não está presente na totalidade de nossa população. Além disso, os países africanos, que estão na raiz de nossa origem, são pouco conhecidos em sua dimensão histórica, institucional, econômica, social e cultural”, afirma.
A central escolheu justamente como tema as relações entre Brasil e África para celebrar o 1º de Maio deste ano. Estarão representados trabalhadores de 12 países daquele continente: África do Sul, Angola, Benin, Cabo Verde, Gana, Guiné-Bissau, Moçambique, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Senegal, Togo e Zimbábue. “A proposta é ir além da tradicional confraternização entre os trabalhadores, o que, evidentemente, é importante. Mas queremos dar um primeiro passo para refletir sobre nossa condição de país afrodescendente e aprofundar nossos intercâmbios internacionais a partir de nossas lutas e conquistas”, diz Adi. No ano passado, o tema do 1º de Maio cutista foi a integração com a América Latina.
A avaliação geral é de que o país vem avançando na superação das desigualdades, mas ainda tem um longo caminho a percorrer. Os afrodescendentes brasileiros figuram entre as principais vítimas da violência, por exemplo. De acordo com o Mapa da Violência elaborado pelo Instituto Sangari, em parceria com o Ministério da Justiça, de cada três pessoas assassinadas, duas são negras. É também esse grupo social que lidera estatísticas de analfabetismo e desemprego, confirmando a situação de descaso à qual sempre foi relegado.
Entre os avanços, dois destaques foram a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, sancionado em 2010. Este foi um dos resultados de compromissos assumidos na Conferência Mundial sobre Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada em Durban, na África do Sul, em setembro de 2001.
Em mensagem pelo Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial (21 de março), o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, lembrou os dez anos da conferência de Durban. “O Ano Internacional oferece a oportunidade de avançar nesse combate e de reconhecer as amplas contribuições que os afrodescendentes deram ao desenvolvimento político, econômico, social e cultural de todas as nossas sociedades. Para derrotar o racismo, temos de acabar com as políticas públicas e as atitudes privadas que o perpetuam.”
Para os movimentos sociais, é preciso fortalecer as políticas públicas de igualdade racial e ações afirmativas. “Os países africanos têm sede de conhecimento sobre o Brasil e veem com muito interesse o estreitamento de relações em vários campos de atividade”, diz o presidente nacional da CUT, Artur Henrique. O dirigente recorda que, em nosso território, existem hoje 31 embaixadas africanas e, no continente africano, 19 embaixadas brasileiras. “Muitos países do continente que enfrentaram situações de conflitos em passado recente as superaram, a exemplo do apartheid na África do Sul e guerras coloniais, e hoje aspiram ao desenvolvimento e a uma política voltada para o bem-estar das populações, passando pela organização dos trabalhadores e trabalhadoras”, diz Artur.
“É importante lembrar que a história das relações entre o Brasil e a África, embora tenha sido marcada em seu início pela diáspora e pelo tráfico de escravos, tem uma ancestralidade que ainda pouco conhecemos e é referenciada hoje por relações dinâmicas, principalmente econômicas e culturais, que queremos estreitar, em especial com os trabalhadores desses países”, reforça Adi.
Do ponto de vista econômico, o Brasil passou a priorizar a África em suas relações comerciais. Exemplo disso é o crescimento das transações: em 2000, a corrente de comércio (exportações mais importações) somou pouco mais de US$ 4,2 bilhões; em 2010, foi de quase US$ 20,6 bilhões.

Nacionalidade

Há estimativas de que, apenas no século 18, o número de escravos enviados ao Brasil chegou a 6 milhões. Mão de obra que foi usada em plantações de cana e, posteriormente, minas de ouro, diamantes e – já no século 19 – plantações de café.
O professor Eduardo de Oliveira, presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), observa a necessidade de compreender essa contribuição dos africanos na formação do país. “Na minha visão de político, professor e poeta, o fato de que o negro foi o primeiro trabalhador formal do país e o de ter vindo como escravo não invalidam a contribuição concreta que ele deu à formação de nossa nacionalidade”, afirma o professor e autor do Hino da Negritude, hoje adotado em mais de mil municípios brasileiros.
Oliveira ressalta que aqueles que são solidários com os valores humanos estão de acordo que, desde os primeiros anos de nação, o Brasil tem uma grande dívida com os negros da diáspora africana, e esse fato está hoje cristalizado no reconhecimento que o Estado vem adotando nos últimos anos, a partir da presença de um trabalhador (Lula) no governo do país. “Basta isso, para que neste 1º de Maio se reconheça e contemple o povo afro-brasileiro de modo a torná-lo autossuficiente em ações de políticas públicas e se contribua para nele despertar a autoestima por sua inteligência e seu vigor cultural”, acrescenta.
Na opinião do presidente da Fundação Palmares, Elói Ferreira de Araújo, a cultura no Brasil não teria a mesma pujança e riqueza não fosse a contribuição dos negros africanos trazidos para cá. “Busca-se criar semelhança com a diáspora de outros povos. Mas a vinda dos negros para o Brasil foi um processo de escravização, eles foram responsáveis pela produção das riquezas do Estado brasileiro durante quase 400 anos. Ao mesmo tempo, não houve um processo de inclusão para que tivessem acesso aos bens econômicos e culturais produzidos por eles próprios”, observa. “Mas estamos em um momento extraordinário no Brasil, em que há um grande aquecimento e interesse do governo em construir ações de natureza afirmativa que levem em consideração reparar quatro séculos de escravidão.”
Um exemplo de política afirmativa está na Lei 10.639, de 2003, que tornou obrigatória a disciplina História e Cultura Afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares. A lei determinou ainda a inclusão no calendário escolar do 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra. Há também o Programa Brasil Quilombola, de apoio às comunidades.
A cantora e compositora Leci Brandão, deputada estadual em São Paulo (PCdoB), vê ainda muita discriminação no país. “No Carnaval, assistimos às meninas da comunidade substituídas por rainhas de bateria brancas que frequentam a mídia. Na televisão, não tem mulher negra como apresentadora, mas serve de ajudante. Nesses programas de culinária, carregam a bandeja da apresentadora e mexem nas panelas”, afirma. 
A própria Leci ressalta que, apesar de uma carreira de 36 anos, não tem espaço nos cadernos de cultura. Mesmo observando que desenvolve lutas que não se restringem ao afrodescendente, ela lamenta: “Enquanto o descendente de italiano, francês, português ou espanhol sabe de que país vieram seus antepassados, nós, não. Sabemos que viemos do continente africano, mas não de qual país, porque fomos espalhados pelo mundo com a diáspora”.
Ela avalia que houve avanços tímidos no país. “No Congresso e nos governos temos poucos negros. Podemos destacar a deputada e ex-governadora do Rio Benedita da Silva, Matilde Ribeiro, ex-ministra da Seppir­, e, na mídia, o ator Lázaro Ramos. Mas os negros estão sempre sendo postos de lado. Apesar disso, nossa cultura de resistência persiste e, felizmente, estamos presentes em grande parte dos movimentos culturais deste país.”  




fonte http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/58/cores-da-integracao

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Martin Luther King

Martin Luther King, um ícone da luta por igualdade e paz

quinta-feira, by Karina Gama
Foto: Arquivo / FCP
Os ideais de Martin Luther King mobilizaram multidões
Por Karina Miranda da Gama
Martin Luther King Jr. foi um grande líder pacifista. Lutou incessantemente pelos princípios de liberdade e igualdade, e pelos direitos civis na América. Pelo combate pacífico contra o preconceito racial, ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Mas a trajetória de um dos mais importantes e respeitados líderes políticos negros foi breve. Luther King foi assassinado no dia 4 de abril de 1968, aos 39 anos, por um branco segregacionista.  
A luta de Luther King pelos direitos civis nos Estados Unidos teve início no episódio conhecido como Milagre de Montgomery, em 1955. Então presidente da Associação de Melhoramento de Montgomery, liderou, junto com os demais membros da comunidade, um boicote às empresas de ônibus da cidade, após um ato discriminatório a uma passageira negra.  
MOVIMENTO – A passageira, Rosa Parks, que se recusou a ceder o lugar para um branco, foi presa por desacato às leis segregacionistas. O episódio colocou a questão racial em debate nacional e gerou um movimento, que durou um ano, para pressionar o Estado a abolir este tipo de segregação. A reivindicação foi acatada pela Suprema Corte Americana, que determinou o fim da discriminação nos transportes públicos.  
King liderou uma série de protestos em diversas cidades norte-americanas contra a segregação racial em espaços públicos e pelos direitos civis do negro. Em 1960, os negros conquistaram o direito de acesso a bibliotecas, parques e lanchonetes. Na década de 60, a questão racial era apenas uma parte da luta de classes nos EUA, além das greves e da luta dos trabalhadores, e da participação dos EUA em golpes e conflitos militares no mundo inteiro.  
MARCHA Em 1963, o ativista político liderou a Marcha para Washington, um movimento de luta pelo fim da segregação racial. O manifesto em prol dos Direitos Civis de todos os cidadãos americanos contou com a participação de mais de 200 mil pessoas. Na ocasião, Luther King proferiu o célebre discurso Eu tenho um sonho, que clamava por uma sociedade de liberdade e igualdade.  
Aos 35 anos, Luther King foi contemplado com o Nobel da Paz, sendo o mais jovem ganhador deste importante Prêmio. A não-violência foi a forma utilizada para articular sua luta, realizada por meio de uma resistência firme, mas pacífica. No entanto, o líder político foi preso por diversas vezes, duramente criticado e sofreu ameaças por seus posicionamentos.  
A batalha de Luther King pelos direitos civis dos negros teve continuidade com a aprovação da Lei dos Direitos Civis, assinada em 1964, que garantia a igualdade de direitos. No ano seguinte, mais uma importante conquista aconteceria: a aprovação da Lei dos Direitos de Voto para os negros. Luther King também lutou em favor de oportunidades de emprego para os pobres no país e, em 1967, uniu-se ao Movimento pela paz na Guerra do Vietnã.  
ASSASSINATO – Martin Luther King foi assassinado no dia 4 de abril de 1968, aos 39 anos, em Menphis. Todavia, sua luta significou um marco histórico na defesa pelos direitos civis de toda a humanidade e pela paz. Seu legado influenciou o fim do Apartheid na África do Sul e permitiu que o mundo assistisse, na primeira década do século XXI, a ascensão do primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América, Barack Obama.  

Temos um sonho e a luta continua!

Manifestações de racismo são constantes na sociedade brasileira e mundial, e ainda assistimos a crimes bárbaros motivados pela questão racial. Os níveis de vitimização de jovens negros são alarmantes, conforme consta no Mapa da Violência 2011 – Os Jovens do Brasil, publicação do Ministério da Justiça e do Instituto Sangari, recentemente lançada (disponível em: www.mapadaviolencia.org.br).  
De acordo com a análise, em todos os dados apresentados, a população negra ocupa os primeiros lugares entre as vítimas por mortes violentas, principalmente os homens negros. “Esta situação está presente em todas as regiões brasileiras, com raras exceções em alguns Estados, e visibiliza um nítido componente racial no perfil de incidência dessas mortes” (trecho do relatório).  
FUNDAÇÃO PALMARES – Neste governo, o cerne da luta contra o racismo é fomentar ações de enfrentamento às violências motivadas pela discriminação, contribuindo para a promoção do direito da população negra à vida. E construir políticas de ações afirmativas para a valorização da cultura negra é o desafio da Fundação Cultural Palmares (FCP), ora sob a presidência de Eloi Ferreira de Araujo.  
Com ferramentas como o Estatuto da Igualdade Racial e a disposição de avançar na transversalidade da cultura com os demais órgãos governamentais e segmentos sociais, os gestores da Palmares desejam promover a identidade dos negros e das negras no Brasil e no mundo. No Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes, Luther King inspira o combate à discriminação.  
Violência racial é violação de direitos humanos. Portanto, a luta pela igualdade e pela liberdade não pode parar! 

Luther King, um perfil

Martin Luther King nasceu numa família de negros norte-americanos, em 15 de janeiro de 1929, na parte mais radical do segregacionismo – o sul dos Estados Unidos, em Atlanta. Filho e neto de pastores, cresceu num ambiente de fortes convicções políticas e religiosas, tornando-se pastor batista aos dezenove anos. Formou-se em teologia pelo Seminário Teológico Crozer e, em 1955, concluiu o doutorado em filosofia pela Universidade de Boston. Defendeu a luta pela paz e se dedicou à filosofia do protesto não violento, inspirado nas idéias do líder indiano Mahatma Gandhi. 


fonte http://www.palmares.gov.br/?p=9934

Caso Bolsonaro

Palmares encaminha denúncia de racismo à Procuradoria-Geral da República

sexta-feira, by Suzana Varjão
Foto: Suzana VarjãoFoto: Suzana Varjão
Eloi Ferreira de Araujo, acompanhado por Dora Bertulio, protocolando o documento

Da Assessoria de Comunicação  
O presidente da Fundação Cultural Palmares (FCP), Eloi Ferreira de Araujo, encaminhou hoje (01-04-11) ao Procurador-Geral da República, Roberto Monteiro Gurgel Santos, o pedido de providências em relação às declarações de Jair Bolsonaro contra a população afro-brasileira, dadas na noite da última segunda-feira (28), a um programa humorístico.  
Eloi Ferreira de Araujo protocolou pessoalmente a denúncia na sede da Procuradoria Geral da República (PGR), em Brasília (DF), sendo acompanhado, no ato, pela Procuradora-Chefe da Procuradoria Federal na Fundação Cultural Palmares, Dora Lucia de Lima Bertulio. A decisão de encaminhar o documento à PGR foi tomada em função das prerrogativas do denunciado, que é Deputado Federal (PP-RJ).  
OS FATOS – Dentre outras ofensas, o parlamentar, respondendo a uma pergunta da cantora Preta Gil sobre o que faria se o filho se apaixonasse por uma negra, respondeu que não iria “discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.     
Questionado, ainda, sobre cotas raciais, o político disse que “não entraria em um avião pilotado por um cotista, nem aceitaria ser operado por um médico cotista”. As palavras do deputado tiveram grande repercussão nas mídias sociais, provocando a reação de várias organizações de defesa dos direitos humanos e da população negra – entre elas, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Fundação Cultural Palmares (FCP).  


 Fonte
             
http://www.palmares.gov.br/?p=10093

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ausência de negros chama a atenção na visita de Obama

Ausência de negros chama a atenção na visita de Obama

22/3/2011

da Afropress

S. Paulo – A quase total ausência de negros na agenda da visita do presidente americano Barack Obama, ao Brasil, no último fim de semana, continua repercutindo e causando estranheza. Até mesmo o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares e presidente da Afrobrás, José Vicente – de perfil considerado moderado e conciliador – não se conteve.

Segundo Vicente, a Obama não terá escapado “a ausência de um único oficial brasileiro negro para lhe prestar continência na sua chegada em Brasília e ao Rio”. Embora correspondam a apenas 13% da população americana, a presença negra é expressiva entre militares nos
EUA, inclusive nos que servem à Casa Branca.

“Obama certamente observou que também não havia, ao menos meia dúzia de jornalistas negros para entrevistá-lo”, acrescentou, na abertura do ano letivo dos cursos da Faculdade Zumbi dos Palmares, na noite de segunda-feira (21/03) no Memorial da América Latina, lembrando que o Brasil tem a maior população negra do mundo fora da África, com 95 milhões de afro-brasileiros, o equivalente a 51,3% da população.

Não é fácil…

Na mesa da solenidade, que teve como mestre de cerimônias a apresentadora do SBT, Joyce Ribeiro (foto), o governador de S. Paulo, Geraldo Alckmin, e o ex-secretário de Justiça, Hédio Silva Jr., além de representantes de bancos como o City Bank, o Bradesco, e o HSBC, e empresas como o Carrefour e a Mercedes Benz do Brasil, que tem parcerias com a Palmares.

Ao declarar aberto o ano letivo, Vicente fez um histórico do Dia Interncional de Luta pela Eliminação da discriminação Racial, e lembrou o massacre de Sharpeville, na África do Sul, que motivou a ONU a criar a data em repúdio à violência racista do regime do apartheid.

O reitor da Unipalmares, que esteve no Theatro Municipal do Rio, para ouvir o presidente americano, lembrou que nos EUA, os negros receberam, após a abolição, acres de terra e uma mula, enquanto que no Brasil foram jogados na rua. “Não é fácil ser negro neste país, governador”, disse dirigindo-se a Alckmin e provocando a reação da platéia, que lotou a sala e o aplaudiu de pé.

Ausência

Além de Vicente, lideranças negras, que preferem manter seus nomes em sigilo, consideram que a visita de Obama ao Brasil – que o país, com maior população negra fora da África – acabou por evidenciar a força do mito da democracia racial, que para muitos havia se enfraquecido com o avanço da luta por igualdade no país.

Segundo essas lideranças, se não tivesse sido informado por sua assessoria sobre a realidade dos negros brasileiros, o presidente americano teria saído com a impressão do seu antecessor, George Bush.

Segundo a revista alemã, Der Spiegel”, Bush não sabia que havia negros no Brasil e, numa conversa com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, ocorrida em novembro de 2001, em Washington, teria perguntado ao colega brasileiro. “Vocês também possuem negros?”

Na ocasião, a então assessora para assuntos de segurança nacional de Bush, Condoleeza Rice e FHC teriam saído em seu socorro: “Senhor presidente, o Brasil provavelmente possui mais negros do que os EUA. Dizem que é o país com maior número de negros fora da África”, teria dito FHC.

Globais e celebridades

Mesmo no Theatro Municipal do Rio, onde foram reservados convites para 2 mil convidados, além de algumas celebridades como Gilberto Gil, Emanoel Araújo, e o ator global Lázaro Ramos e personalidades do mundo acadêmico, contava-se nos dedos, o número de negros que estiveram presentes nas atividades da agenda do presidente americano.

Essas mesmas lideranças também manifestam estranheza pela total ausência da ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, que em nenhum momento foi notada na agenda de Obama. A questão racial acabou sendo lembrada apenas no evento do Itamaraty, quando a presidente Dilma Rousseff propôs um brinde ao “sonho de Martin Luther King”.

A ministra da Igualdade Racial tampouco apareceu em uma foto sequer ao lado do presidente norte-americano, em contraposição às cenas de tietagem explícita do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e do governador Sérgio Cabral, ambos visivelmente deslumbrados com o visitante.

Paes constrangeu o presidente americano a tirar uma foto com um filho de seis anos, quando Obama desembarcava do Air Force One e se dirigia ao hall da Base Aérea do Galeão, no sábado.

Na despedida, na segunda-feira, também no Galeão, a mulher de Cabral pediu ao presidente americano para posar para fotos, quando Obama – junto com a mulher Michelle, as duas filhas, a sogra – já se dirigia à escada do avião para embarcar rumo ao Chile.

Fonte  http://www.viomundo.com.br/