quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Política de cotas

A políticia de cotas como uma ação afirmativa

Nome: Maria Cláudia Cardoso Ferreira

Formação: Pesquisadora do PROAFRO, professora de História da rede municipal de ensino, militante do Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC) e aluna do curso de mestrado em História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


IBGE há pouco fez uma pesquisa e perguntou — “Existe racismo no Brasil?” A maioria das pessoas disse que sim, que existe racismo no Brasil Aí, para a pergunta: “Você é racista?”, elas respondem: ¾ “Não.” Então, quem é racista? Essa é a grande hipocrisia do país. Sabe por quê? As pessoas entendem que existe racismo no Brasil? Eu acho que a pergunta tinha que ser essa — “Isso te incomoda? O que você tem feito pra mudar isso?


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Entrevista com Maria Cláudia Cardoso Ferreira

Salto – Qual a importância das cotas para negros e para estudantes vindos do ensino público na nossa sociedade, atualmente?

Maria Claudia – A questão das cotas, ela insere uma discussão no Brasil hoje que tem a ver com a questão da distribuição da renda. Isso é uma coisa, porque educação é ascensão social, é um dos caminhos para a ascensão social. Ela insere uma outra discussão, que tem a ver com o convívio de pessoas de diferentes realidades, com diferentes histórias. Esse convívio, entendia-se antigamente, numa outra perspectiva teórica e de nação, entendia-se que esse convívio tinha que ser homogêneo, pasteurizado, e hoje não. As perspectivas, a partir dos anos 60, dentro da teoria e do projeto de nação, para o mundo e para o país, principalmente, são de que a gente tem que trabalhar com essa pluralidade, com a diversidade. Essa divergência não é só étnica, ela também é econômica. Porque os grupos, as classes populares, eles têm contribuições que são trocadas nesse espaço que é a universidade. Universal no sentido de que é de todos e não só de um modelo de pensamento e de educação.

Salto – Por que uma parcela tão grande da sociedade reage tanto a essa política de cotas?

Maria Claudia – Voltando para a questão do poder, se a gente entende educação como um espaço de ascensão social, você tem uma estrutura que está montada, que está arrumadinha... E quando você faz uma política pública, no caso uma política de ação afirmativa, ainda que não seja uma política de alcance, de contingência nacional, encontra reações. Existe um grupo que tem condições para estar chegando a esse lugar, que tem determinado Ensino Médio, que tem que fazer uma prova, um vestibular, que tem que ser aprovado nesse vestibular para poder entrar nessa universidade. Mas é uma parcela, que antes não chegava a isso porque, no país, nunca se pensou em educação para todos, numa educação em massa, numa educação superior. Sempre se pensou numa educação para um grupo. Então, o que vai acontecer? Esse grupo, que está na base, ele vai empurrar quem sempre esteve nesse lugar e aí vai começar a confusão, porque as pessoas não querem abrir mão dos seus lugares. Então, eu costumo dizer que eu não sei se um filho de médico queria ser médico, mas muitos filhos de médicos acabam se tornando médicos. Por que isso aconteceu? Porque as pessoas querem manter o poder, querem manter os seus lugares, assim como os filhos dos advogados tornam-se advogados. E tem uma coisa bem interessante, que eu fico vendo as pessoas dizerem. Depois que houve essa discussão de cotas, é que começou a se dizer que tem que melhorar o ensino técnico. Por que todo mundo tem que fazer faculdade? Eu também acho isso, eu acredito que se a classe média, a classe média alta, todas as pessoas que estão ali, os jovens de hoje, eles querem fazer faculdade, mas eles são empurrados a fazer faculdade, porque isso é status no País hoje. Então, é por isso que eu acredito que as pessoas têm batido tão de frente com essa situação, porque elas não querem perder esse privilégio. E a educação no Brasil ainda é encarada como um privilégio para alguns, doutor não é para todo mundo. Por isso é que as pessoas questionam tanto.

Uma outra coisa em eu que acredito, em relação à questão de cotas para negros, tem toda uma discussão que é desse racismo velado, de uma falsa idéia de que está tudo bem e que isso não incomoda os negros. Porque, se eles correm atrás, eles vão chegar naquele lugar... Isso é mentira. A gente viu, há pouco tempo, aquele dentista, lá em São Paulo que foi assassinado num carro, tinha uma semana que tinha se formado dentista, filho de um coronel da PM, uma pessoa de classe média, que por não ter mostrado primeiro o documento, ele foi assassinado. Então é assim, a cor é um marcador de inferioridade, o corpo negro, ele informa o lugar social. Isso a gente não pode esquecer. As pessoas dizem que não, mas isso com certeza. Se eu chego num espaço e não digo o que eu sou, as pessoas vão ter uma idéia de mim. Depois que elas sabem quem eu sou, dependendo da importância que isso tem para elas ou não, me dão um pouquinho mais de valor. Acho que é hipocrisia achar que isso não acontece no Brasil.

Salto – Você compartilha a idéia de que existe um racismo velado?
Maria Claudia – Isso é um lugar comum no Brasil, dizer que o racismo é velado. E aí faz o quê? Continua com o racismo velado? Porque o IBGE há pouco fez uma pesquisa e perguntou — “Existe racismo no Brasil?” A maioria das pessoas disse que sim, que existe racismo no Brasil Aí, para a pergunta: “Você é racista?”, elas respondem: ¾ “Não.” Então, quem é racista? Essa é a grande hipocrisia do país. Sabe por quê? As pessoas entendem que existe racismo no Brasil? Eu acho que a pergunta tinha que ser essa — “Isso te incomoda? O que você tem feito pra mudar isso? Isso prejudica o crescimento do país?” Porque uma população enorme que não tem educação, não tem acesso a emprego pleno, isso prejudica o crescimento do país. Tem uma população que está na indigência. E essa população, em sua maioria, é negra ou muitos não se consideram negros, mas são negros. Essa perspectiva de que são descendentes dos africanos. Se você for pegar lá, numa perspectiva cultural e biológica, são os descendentes dos africanos. Nesse sentido, eu acho que tem que fazer política pública para essa população, senão o país não vai crescer. Essa história de crescimento econômico não vai funcionar.

Salto - Quem não seria negro no Brasil? E quem é branco no Brasil?

Maria Claudia – Eu tenho uma tataravó italiana. Agora, se eu for procurar emprego no shopping, alguém vai me dar emprego porque eu tenho tataravó italiana? Eu tenho bisavós da outra parte da minha família indígena – a minha avó, mãe de meu pai, é uma mulher negra de pele muito clara e cabelo cacheado. Tem uma presença indígena negra muito forte na minha família branca. A minha bisavó é filha de uma mulher italiana com um homem negro, fugido, e ela fugiu de casa e se casou com ele. Então, o que acontece? Só que, quando eu for procurar um emprego hoje, quando eu chegar em um espaço, e fizer um concurso público e tiver um chefe discriminador racista, ele não vai me dar ascensão social. Ele não vai me promover, vai promover o outro. Por quê? Eu tenho na minha árvore genealógica presença indígena, africana e européia. O que marca o meu corpo hoje? A idéia de raça, ela não está fundada na biologia. A idéia de raça está fundada no que diz o Antônio Sérgio Guimarães, que é um sociólogo de São Paulo, da USP, e outros teóricos estrangeiros que trabalham com a idéia de raça social. As pessoas escolheram características biológicas que não devem definir a vida das pessoas, mas as pessoas escolhem essas características biológicas para definir o lugar para essas pessoas. Então, o fato de ter pele escura, de ter cabelo crespo, de ter fenótipos, marcadores no meu corpo de uma história, de uma biologia que está na África, faz com que eu tenha espaços em que eu possa ir e espaços em que eu não possa ir. Eu costumo dizer isso, se eu for procurar emprego no shopping hoje e disser que eu tenho uma ancestralidade européia, alguém vai acreditar nisso? Isso vai fazer com que um cliente me veja como uma pessoa idônea? É isso que a gente tem que pensar. Isso funciona ao contrário, quem tem um corpo com mais presença européia, o fenótipo vai possibilitar o acesso, as portas vão se abrir mais rápido para essas pessoas, porque se entende que quem tem o fenótipo europeu é mais decente, é mais inteligente é mais preparado e mais bonito, é assim que se construiu a idéia de racismo nesse país. Isso é verdade? Isso é o que a gente tem que questionar. Eu não acredito na biologia, mas a sociedade brasileira hoje ainda acredita em biologia e faz essas diferenças e essas divisões sociais. É estar mais longe do africano possível, mais longe do negro possível! Então, ter boa aparência é estar mais longe desse fenótipo do negro. Isso é que é ter boa aparência. É claro que a gente tem que levantar uma ou outra questão, a gente tem que conjugar isso com o capitalismo que tem maneiras de excluir. E ele escolheu algumas combinações. Na verdade, tem uma combinação que é pobre, negro e nordestino. Essas coisas se combinam para poder estabelecer a massa que vai ser excluída. Então, se você combina essas coisas, você fica cada vez mais longe. Se você é negro, se é mulher, se é empobrecido e oriundo da periferia ou do Nordeste, você agrega fatores de exclusão, cada vez mais. Você vai ter mais dificuldade de acessar os bens de cidadania, do direito de cidadania.

Salto – Qual o papel da escola nessa luta anti-racista e antipreconceitos?

Maria Claudia – Eu acho que a primeira coisa que a gente tem que fazer enquanto educador é desconstruir essa idéia de hierarquia, de que existem melhores e piores. É claro que é muito difícil fazer isso, muito difícil problematizar isso com crianças. A gente tem que trabalhar isso. Eu me lembro de que, ano retrasado, na escola, eu perguntava para eles, para os meus alunos: Quais os grupos que formaram a sociedade brasileira? Eu estava começando a trabalhar com ocupação do Brasil, a questão do “descobrimento” e eles falavam dos portugueses – dos brancos. Alguns falaram dos indígenas, mas nenhum aluno falou dos negros, alunos negros! Então, não sei de onde eles surgiram, porque eles não conseguiam se ver originados dessa população. Aí, eu comecei a problematizar com as crianças. Perguntei para elas, por que, numa escola com vários alunos negros, vocês não falaram do negro enquanto povo, africano, enquanto povo que veio para cá e que colonizou o país também? Aí eles falaram — “Porque eles foram escravos, professora”.

Porque o livro didático, ele se esforçou durante esse tempo todo, em colocar o negro como escravo. Esse lugar do escravo é o lugar do inferior, que aceitou ser escravizado e que foi trazido como mão-de-obra. Isso é uma mentira. Os estudos de relações sociais e de escravidão, eles comprovam: a primeira coisa é que você traz uma população que já está preparada para esse tipo de trabalho, que é um trabalho hiperdiversificado. A colônia não foi “plantation” a vida toda. A colônia foi transformando e crescendo e diversificou as atividades. Você tem histórias de cativos, de escravos, de negros escravizados que já podiam comprar sua alforria e que o senhor não dá alforria. Mas ele também tem uma vida até melhor em relação aos bens, às condições de vida, até melhor do que a de outros libertos, porque ele tem uma profissão, ele é um dentista. Chamava de dentista, aquela pessoa que extraía dente. Ele tinha uma profissão específica e essa profissão lhe dava condições de ter uma vida melhor, mas ele era propriedade de alguém ainda. Então o período de escravidão no Brasil é amplo, diversificado, mas o livro didático, durante muito tempo disse o quê? Que você era escravo, propriedade de alguém, que apanhava, que era inferior, que aceitava a escravidão. Ou, no máximo, aquela história do negro que é um herói, que rompeu com tudo, como são alguns símbolos. O que acontece com a sala de aula? Eu acho que o professor, ele tem que colocar os dois lados, ele tem que colocar as contribuições de cada povo, essas imbricações, como que essas coisas se misturaram, colocar o que foi positivo nisso, o que foi negativo nisso. A gente não pode fingir que isso foi pacífico, a chegada do colonizador não foi pacífica. O indígena resistiu, mas também foi assimilado, e o português também se assimilou à cultura indígena. Porque isso faz parte da constituição dos encontros e dos momentos em que grupos culturais se encontram. Isso faz parte de qualquer ocupação. Na Península Ibérica já foi mesma coisa, você tem toda uma história de Portugal e Espanha que está fundada no Oriente. Por quê? Foram 700 anos de ocupação Árabe. Então, como não ter na cultura portuguesa e espanhola coisas da cultura oriental? A mesma coisa aconteceu no Brasil! Só que a gente quis a vida toda passar uma idéia de um Brasil branco, mais próximo da Europa, porque isso era progresso. Eu acho que é nesse sentido que acontece.

O professor ainda tem pouco subsídio, ele foi formado nessa escola, nessa universidade com a matriz branca, matriz européia, então ele não consegue ainda trabalhar com essas outras contribuições. Quando ele trabalha com a contribuição, ele trabalha muito na perspectiva culturalista. E de uma cultura reduzida, que é da manifestação cultural. A definição de cultura não é essa. Acho que manifestação cultural é uma parte da definição de cultura. Então, aí o negro entra como batuqueiro, com a comida, com a emoção. O índio com a questão do corpo, de pintar o corpo com as danças, com a cultura da roça. Eu acho isso muito pouco, muito reduzido. Mas tem a ver com formação, por isso é que eu acho que é interessante essa questão da lei que Lula assinou, de ensinar a história da África e a história do negro no Brasil! Isso é importante, no sentido de que a gente tem que rever a história do Brasil, Praieira, Cabanagem, Balaiada, tudo isso tem que ser recontado, e com a participação negra e indígena.

Salto – Você acredita que racismo, discriminação e preconceito também estão presentes dentro da escola? De que forma?
Maria Claudia – Todo dia. E, às vezes, de uma maneira muito simbólica. É claro que têm umas situações que são mais gritantes, outras que são situações mais simbólicas. Um exemplo: uma das escolas em que eu trabalho, no Dia Internacional da Mulher, fizeram um cartaz bonito sobre a questão da mulher. É uma escola de periferia, perto de algumas favelas daqui do Rio de Janeiro. A coordenadora pedagógica mostrou umas imagens muito bonitas, só que é assim, não tem uma mulher negra na imagem do cartaz que ela fez, não tem uma mulher com os fenótipos de uma nordestina, não tem uma mulher indígena... Então, que cartaz é esse? Essas coisas não são necessariamente uma forma de racismo, porque racismo seria essa ideologia da superioridade de uma raça e a valorização dessa raça em detrimento das outras. Não seria um racismo declarado. Mas a ideologia que está permeando a escolha do cartaz dela está fundada nisso. Não que a pessoa que fez o cartaz acredite nisso de pronto. Mas porque é o que está nas revistas que ela escolheu. Eu perguntei depois porque ela tinha feito aquilo, e ela disse: “eu não encontrei imagens de mulheres.” Na outra semana, passou um outro evento, ela fez outro cartaz, aí sim ela se preocupou com isso. Tem um estudo até de uma professora de São Paulo, da Elaine Cavalheiros, que é “Do silêncio do lar ao silêncio escolar.” Então o que acontece? A criança negra, ela é menos escolhida para apresentar trabalhinhos lá na frente, numa atividade escolar, do que uma criança branca. Na hora de andar de mão dada com a professora, a professora escolhe a criança branca. Mulheres que estão bem, que estudaram, mulheres que já têm uma reflexão dessa situação se voltam para o passado e identificam esse tipo de coisa. O fato de a professora, em conversas informais, tratar melhor um aluno com um fenótipo mais próximo do europeu e não tratar bem um aluno negro, um aluno que ela identifica como negro. Entendeu? O mais difícil é falar disso para o professor. Eu acho que é muito complicado você chegar, na sala de aula, e falar disso com um colega, você vê um colega ter uma atitude dessa e chegar para o colega e lhe falar que ele teve uma postura racista, que ele tem que mudar sua postura, porque isso influencia no rendimento dessa criança. Por que os índices de reprovação e de fracasso escolar são maiores nas crianças negras? Mesmo em crianças com a mesma classe social, você pega crianças negras de classe média que têm família estruturada, material didático bonitinho, tudo direitinho... Aí há estudos que comprovaram isso, que ainda assim, elas têm um rendimento abaixo da média das crianças brancas. O que que é isso? A única explicação é o cotidiano escolar, porque isso influencia. Uma outra coisa que eu acho que influencia também – claro que se for um professor consciente, reflexivo – seria a presença de mais professores negros na escola, o que hoje está aumentando. Porque a criança tem um exemplo. Isso é muito interessante. Também é claro que você tem que ser exemplo para os brancos, eu acho isso importante. Você vê os alunos negros se identificarem com você, verem você como uma pessoa bonita, que dá certo, isso é uma coisa importante. Por que o negro, ele se vê aonde? Na capa do Jornal O povo. Como é que ele se vê na capa do Jornal O povo? Como saem as reportagens sobre os negros no Brasil? Muitas vezes, na reportagem, o negro é mostrado como o excluído, nas rebeliões dos presídios, assaltos, etc. Ou como jogador de futebol, cantor de pagode. Por isso é que as ações afirmativas, eu acho que também vão mudar essa perspectiva, porque a criança vai ver um médico negro atendendo no posto de saúde, vai ver aumentar esse número, vai ver uma assistente social negra atendendo, uma fonoaudióloga, uma enfermeira, um diplomata.

Salto – Qual a importância da mídia nestes casos?

Maria Claudia - A mídia, eu acho que seria a principal frente, fora a educação, eu acho que uma das frentes mais importantes é a mídia. A gente vive numa sociedade que vive de imagem, a imagem é tudo no mundo moderno, nesse mundo pós-moderno até, e a mídia no Brasil ela tem funcionado como um grande entrave nessa mudança de perspectiva, para uma visão positiva, nesse imaginário da população negra no Brasil. Ainda hoje, nesse sentido, eu acho que isso prejudica tanto o negro quanto o branco. E a questão indígena também, você pega as reportagens sobre os indígenas, o que que você vê? São povos que ainda estão lá na floresta, vivendo de uma maneira muito rudimentar. É sempre colocado assim, você pega um Globo Repórter, mostra o índio vivendo da caça, da coleta e da pesca, coisas assim. E não é só isso. Está muito para além disso. Ou então, quando se coloca a população indígena ou os povos indígenas, os vemos encontrando a cultura da cidade, a cultura do branco e eles se promiscuindo, se corrompendo como nas últimas reportagens que passaram sobre a questão dos garimpeiros. Então, eu acho que essa mídia, ela seria uma das grandes frentes, mas eu acho que a mídia não está muito preocupada com isso. Eu acho que, em relação à população negra, que é uma coisa que eu me preocupo mais, a gente teria que produzir mídia. Eu acho que a TV Estatal, ela teria que investir mais nisso, em programas independentes, para que essa população pudesse se colocar. Nesse sentido, falar sobre cotas nos meios de comunicação é fundamental. Tem que ter a propaganda, tem que cobrar a presença do corpo negro ali, tem que ter a presença do indígena, a questão do oriental mesmo, você tem a população japonesa e chinesa no Brasil, são brasileiros também. Não são vistos. Eu tenho uma miopia de 6º grau e eu sempre troco de óculos. Quando eu vou comprar meus óculos, eu vejo sempre as propagandas das lojas de óculos. E como se os negros não comprassem óculos, os orientais não comprassem óculos, é um absurdo. Como você quer ver a estética daqueles óculos com uma cor mais diferente no seu corpo, como que fica a cor em você, você não pode fazer isso. Porque você não tem essa imagem. E isso é muito importante. E a gente pensa que não, mas tem um simbólico muito interessante. Tinha uma propaganda do Banco do Brasil há uns 2 anos, que era uma família de negros, acessando a internet. Então, era um casal de negros, mais duas crianças acessando a internet. Saiu nos jornais, os meus amigos comentavam: “Que propaganda linda, as pessoas estão bem naquela propaganda, estão bonitas...”. A gente pensa que não, mas são coisas simples, que as pessoas podem passar a se ver de uma maneira mais positiva. Só que eu acho que essa mídia que está aí não está interessada em fazer isso.

Salto - Por que você acredita que o conceito de Pluralidade Cultural ganha tanta importância em todo mundo hoje em dia?

Maria Claudia – Eu acho que é a questão do paradigma, mudou o paradigma. O paradigma do Ocidente como modelo que deu certo, do progresso. Esse era um paradigma. Eu acho que, a partir da 2ª Guerra Mundial, com toda a questão do nazismo, eu acho que foi uma coisa que marcou o mundo todo Não foi só o nazismo, foi o que ficou mais gritante. Mas tinha também a questão do Aphartheid na África do Sul, a questão do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos e as independências dos países africanos, que eram colônias dos países da Europa. Essas coisas todas aconteceram, basicamente, a partir da 2ª guerra Mundial. E a 2ª guerra Mundial foi uma grande lição para o mundo e para o Ocidente, principalmente. Primeira coisa, existia uma mentira que era essa hegemonização do mundo em cima de um padrão, que era a Europa. Por quê? Esse progresso, ele traz benefício, mas ele também traz vários malefícios. Um dos mais maléficos foram as bombas em Hiroshima e Nagasaki, a discriminação em massa dos judeus, que foi o mais gritante, mas o de outras populações também. Então, a partir desse momento, eu vejo e os estudos comprovam, é que a perspectiva do multiculturalismo e da pluralidade cultural, ela começa a tomar força. Porque se você repara, o que aconteceu era uma imposição da unidade pela força, era o Estado-nação com o aparato do exército, da força, ele fazia que os outros grupos se silenciassem. No máximo, o que acontecia é que você poderia se manifestar no campo dessas manifestações culturais que, no caso do Brasil, era o samba. O samba dos anos 20, dos anos 30, ele é considerado como algo marginal, de exclusão. Quando se quer trazer essa população, cooptar com esse Estado nacional, o que se faz? Tira isso do popular e traz como símbolo do Estado. E aí essa população se sente contemplada e, mais do isso, isso é absorvido pelo Estado-nação. As elites começam a praticar isso, que foi o que aconteceu. E o samba, se bobear, não é nem mais da cultura negra, é uma cultura nacional, é uma coisa que foi feita. Isso aconteceu até, eu acho, os anos 60, mais especificamente, o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos. O movimento de mulheres, o movimento de mulheres tem uma grande questão para colocar: que mulher é diferente de homem. Isso não quer dizer que ela tenha que ser “desigual” ao homem, mas diferente ela é. Então, esses movimentos todos trouxeram esses temas para a discussão, para a academia, para a universidade. Esses outros lugares, que são lugares do diferente, mas não do desigual. Então hoje, eu entendo assim, que é impossível pensar o mundo sem essa questão do plural, porque se você pensa, você acaba criando um silenciamento que é pela força. Mas que, por baixo, está efervescendo todo um conjunto de questões que é próprio das culturas, que constroem conforme as suas realidades e suas maneiras de ver o mundo. Então, hoje, o Estado tem assumido isso como uma coisa que é dele, tem que contemplar a diversidade. Nesse sentido é que eu acho que as políticas para o pluralismo cultural devem, sim, ser realizadas.
http://www.redebrasil.tv.br/salto/

Entrevista com Sebastião Salgado sobre África

Segunda, 10 de março de 2008
08h02 Sebastião Salgado: "A África sempre foi um enigma"Fernando Eichenberg

Não é fácil encontrar o fotógrafo Sebastião Salgado em Paris, cidade, no entanto, em que oficialmente reside desde 1969, quando partiu do Brasil rumo ao exílio, acompanhado da mulher, Lélia Wanick Salgado, com quem está casado há 40 anos. Durante cerca de nove meses do ano, "Tião", como é conhecido na intimidade, está metido em alguma expedição em um inóspito canto do planeta. Recentemente, em uma escala na capital francesa, entre um desembarque da Colômbia e uma partida para o Japão, abriu uma brecha na sua agenda de fotógrafo globetrotter para conversarmos durante mais de uma hora, em um final de tarde, na sede da agência Amazonas Images, instalada em um amplo espaço no número 93 do quai de Valmy, face ao aprazível canal de Saint Martin.

Falamos sobre a África, tema de seu último livro (lançado pela ed. Taschen), mas também sobre os destinos do planeta, o Brasil, a política e seu trabalho como fotógrafo. Nosso encontro foi provocado para uma entrevista, publicada na Revista da Cultura (n° 6, janeiro/2008), mas como, por questões de espaço, parte de nossa conversa permaneceu inédita, disponibilizo aqui a íntegra para o leitor da Terra Magazine.

Terra Magazine - Ao longo dos anos, a África se tornou um destino privilegiado de suas numerosas expedições. Imagens registradas em 40 reportagens feitas durante 30 anos foram reunidas agora em um livro de 336 páginas e 221 imagens em preto-e-branco. Você se lembra das sensações, do que sentiu da primeira vez em que pisou na África, em 1971?
Sebastião Salgado - A África sempre foi um enigma para mim, sempre tive vontade de conhecer. Quando estive lá pela primeira vez, estava chegando em um lugar em que sempre sonhei ir. E cheguei em um momento muito interessante, em que as cidades não eram tão grandes e agressivas como o são hoje. Eram cidades muito agradáveis. Eu me lembro que ficamos no hotel Norfolk, em Nairóbi (Quênia). Um hotel no meio no campo, tinha um parquezinho, bicho em volta. Hoje, o hotel está no meio da cidade. É o mesmo hotel, a cidade cresceu em volta dele, ficou algo monstruoso. Era tudo tão tranqüilo. Eu me lembro que chegamos em Nairóbi numa sexta-feira e na segunda-feira voamos para Kampala (Uganda), sobrevoando o lago Vitória. Chegamos a Ruanda, em Kigali, uma cidade pequenina em que se fazia tudo a pé - hoje é imensa.

Ficamos umas três semanas por lá circulando de carro, um Volkswagenzinho, e naquela época não havia um palmo de estrada asfaltada. Para mim foi algo fabuloso descobrir a beleza da África, que ficou para mim como uma espécie de marca do continente. Até hoje é a minha referência, são as cores, a temperatura, quando estou voando para lá sinto exatamente a mesma coisa que senti da primeira vez. É o único continente desse planeta onde todos os vôos que saem da Europa chegam sempre de manhã. Quando o dia começa a nascer você está dentro de um céu vermelho, é o único lugar que tem um céu daquela cor, você já sabe a tonalidade de onde vai chegar. E aí nunca mais parei de chegar na África. Devo conhecer pelo menos uns 30 países do continente. Tive uma bela amostragem de todas as partes. Mas houve um momento em que jurei nunca mais colocar os pés na África.

Quando foi isso?
Foi nos anos 1974-75, de violência extrema em Angola, a guerra, e com as barbáries que vi por lá disse: "Chega, não volto mais!". E acabei voltando e voltando e voltando. Cheguei da África agora em outubro, estou indo novamente em janeiro, volto de novo depois. A África para mim é um lugar maravilhoso, de contradições brutais, de violências terríveis. Mas não é uma violência característica da África, mas sim da espécie humana. É a mesma do Brasil, nas favelas do Rio, de gente assassinada nas cidades brasileiras. Tem também o que aconteceu aqui na Bósnia, no Kosovo. Também a barbárie total que aconteceu aqui na Europa, há 60 anos. É uma característica da nossa espécie.

Hoje está muito na moda falar da África porque é o exemplo mais recente e perto, que acontece sempre. Ao mesmo tempo é um continente maravilhoso, com paisagens sublimes, onde encontramos o ser humano que fomos há 5 mil anos. Em determinados lugares ainda existimos dessa forma na África. Acabei de fazer agora o vale do rio Omo, no sul da Etiópia. É algo fabuloso você poder conviver com tribos que ainda vivem no essencial na vida, onde o importante é você ter, na maneira mais fina e total, o seu instinto de sobrevivência. Você passa a ser um bicho-homem ligado ao seu planeta. Nu, com uma arma na mão, protegendo o seu gado, seu microcosmo, sua família e mais algumas casas em volta. E convivendo na própria Etiópia com uma África mais que milenar, porque a cultura etíope é antiqüíssima. É o país que mais entendemos porque é o único realmente cristão da África. Eles têm um cristianismo quase tão velho como o nosso, as coisas se parecem, o raciocínio se parece, e você entende um pouco melhor. E você convive com essas coisas todas dentro de um mesmo país.

A África é um algo fantástico, com desertos e montanhas incríveis, pontos altíssimos com amostragens das primeiras vegetações do planeta. Em determinados vulcões que tive a oportunidade de conhecer, no limite de Ruanda, Uganda e Congo, de até 4,5 mil metros de altura, você encontra vegetações fabulosas, com vistas fantásticas. Trabalhei em lugares como a Antártida e a Sibéria, mas onde senti mais frio na minha vida foi na África, na altura desses vulcões. Trabalhei todos esses anos na África, fiz todas essas viagens, pude participar da história recente dos últimos 40 anos do continente. Estive presente como repórter fotográfico, podendo viajar na crista da onda da história africana e testemunhar a formação de países, a imigração, o trabalho, os animais, as paisagens, as grandes secas, o castigo e a prenda da natureza, o efeito da globalização, tudo isso tive a oportunidade de ver e são imagens que estão nesse livro, que para mim não trata só da história da África. Acho que está muito correto o que o Mia Couto escreve no prefácio: você passa a ser não mais só o fotógrafo, mas a sofrer o efeito de tudo do que a África te impregnou. Foi algo muito rico para mim.

O escritor moçambicano Mia Couto escreve no livro que você visitou a África em tempos de cristal e em tempos de lágrima, testemunhou alguns dos mais dramáticos momentos, a consumação do trágico mas também o eclodir da esperança, e fala também do afro-pessimismo, sentimento presente no continente. Você vê saída para a África?
Há saída, sim. Moçambique é um exemplo de um país que tem saída. Foi o único caso de uma negociação de paz levada a cabo pela ONU que funcionou. O fluxo de investimento, de entradas líquidas no país é muito forte, a modificação estrutural do país, as adaptações... Botsuana e Namíbia também estão indo bem. Mesmo a África do Sul. A violência de lá é também a nossa e a da Colômbia. É a violência de países que se urbanizaram, que adquiriram em três ou quatro décadas uma estrutura parecida com as que consideramos modernas nos países daqui. O Brasil passou de 80% de população rural há 40 anos para 85% de população urbana, o que Europa levou 600 ou 800 anos para fazer.

Mas essas coisas acho que tendem a se estabilizar. É claro que não podemos deixar abandonado o continente africano. Hoje se vai na África como um boi vai na vaca, para fuder a África. Isso vai ter de acabar. Você não pode deixar uma grande parte da espécie humana abandonada a si mesma. Nos últimos séculos, o que tinha de melhor na África foi para o Brasil, para a América Central e do Norte. Pegamos os escravos, quem era mais forte, quem tinha capacidade de trabalho. Quem vem para a Europa hoje? São os que têm maior capacidade de iniciativa, que não conseguem fazer nada em seu próprio país, pois não há fluxo de investimento, só matéria-prima. Isso vai ter de parar. Foi o caso do Brasil. Há 30 anos éramos meros fornecedores de matéria-prima e hoje temos empresas como a Vale do Rio Doce, a 16° maior do mundo, que comprou a maior empresa do Canadá. Foi apresentada na Bolsa de Paris e abriram o pregão da Bolsa de Nova York a partir de Paris. Uma empresa brasileira assim, um país exportador de aviões, eu não poderia imaginar isso nos anos 1950.

Nos anos 1960, quando vivi no interior, todos os caminhões que destruíram nossa Mata Atlântica vinham dos Estados Unidos. Quando iríamos imaginar que seríamos esses grandes exportadores de hoje? Então essas coisas aconteceram, estão acontecendo e certamente terão de acontecer na África. Os tempos vão mudando, as combinações geopolíticas passam a ser outras, como é o caso hoje da Índia, China, Rússia e Brasil. Estamos vendo a desmoralização de uma referência do planeta em termos monetários, que era o dólar. Quem diria? As coisas são imprevisíveis. Eu acho que temos todo o direito de ser otimistas nesse caso. Não que a violência vá acabar do dia para a noite, acho que não, ainda há muito sofrimento pela frente na África, mas acho que é o momento de as coisas começarem a mudar, e estão mudando. Só o interesse do Brasil pela África hoje é brutal, muito grande. Está-se indo na boa direção.

Da África para o planeta. O seu projeto Gênesis é uma forma de repensar o "de onde viemos, para onde vamos". Você defende o desenvolvimento sustentável como uma forma de salvação. Você acredita na supremacia do atual discurso ecológico sobre o mundo consumista, imediatista e individualista?
Acho que as coisas mudaram muito. O discurso no planeta mudou radicalmente nos últimos dez anos. A ponto de um ex-candidato a presidente nos EUA ter sido prêmio Nobel a partir de um discurso inteiramente ecológico. As pessoas hoje com possibilidade de se tornar presidente dos EUA são as que têm uma preocupação com esse grito de alarme do aquecimento global, que é real. Hoje, chega-se à conclusão de que todo o gelo do Ártico, que deveria terminar nos próximos 60, 70 anos, vai acabar no máximo em 10, 12 anos. O clima do planeta, principalmente do norte, vai mudar muito mais rápido do que se imaginava. É um momento muito interessante, porque o perigo está aí e as coisas vão ter de mudar.

Não há uma empresa nesta parte do planeta que não tenha como referência o discurso ecológico, seus produtos tem de ser ecológicos, limpos. Nesse ponto, estamos muito atrasados no Brasil. O discurso da agricultura que tem hoje o governo, com o qual eu tenho uma certa proximidade, é um discurso do passado, velho. O discurso da megaempresa agrícola, do equilíbrio da balança de pagamentos, de grande exportador de matéria-prima... Quando se calcula a porcentagem que essa matéria-prima exportada - café, soja, laranja - entra na composição do PIB brasileiro, é algo muito pequeno, não é nada. Mas se mantém esse discurso antigo, enquanto o discurso moderno hoje da agricultura é o do desenvolvimento sustentável, da recuperação ambiental.

Nós estamos com uma defasagem muito grande. Estamos fazendo no Brasil uma agricultura velha, do passado, e temos de mudar. Mas de uma maneira geral essa preocupação hoje no planeta é muito grande. Acho que podemos reduzir essa aceleração do efeito do aquecimento plantando árvores. E temos um espaço incrível para fazer isso no Brasil, para reequilibrar o fornecimento de água. Mas, ao lado desse discurso velho do governo brasileiro, existe uma preocupação nova também no país. Há ONGs muito sérias e fortes, há um grande grupo de intelectuais brasileiros, uma grande parte da população urbana que está preocupada com isso, sim.

Você sempre denunciou a "ditadura financeira" como um dos piores males de nosso tempo. Ainda é?
Vejo mais do que nunca o perigo disso. Mas muitas coisas trazem nelas mesmas a solução. Hoje, a denúncia dessa grande ditadura financeira, a transparência de uma série de setores da economia, que antes não existia, começa a aparecer. Essas coisas terão de ser resolvidas, apesar de continuarmos acumulando de uma maneira incrível. Veja a quantidade de dinheiro acumulado por esses fundos de pensão, a concentração dos bancos. Mas eles também têm uma certa vulnerabilidade. O fato de os americanos não terem hoje condições de pagar as prestações de suas casas por causa dos juros altíssimos que os bancos impuseram provocou uma crise muito forte no sistema financeiro.

Assim como falamos da África, que tem um sistema de autocorreção, tenho a impressão de que haverá um sistema de autocorreção na distribuição de renda no mundo, e relativamente rápido. Há pouquíssimos anos toda a renda do planeta era concentrada na América do Norte, em algumas praças financeiras da Ásia, como Japão e Hong Kong, e na Europa. Hoje, está começando a haver uma redistribuição muito rápida disso, apesar de a renda ainda ficar muito concentrada na parte alta de todas as sociedades. Mas há uma reorganização desse fluxo financeiro, com a participação de outras praças, como São Paulo, Xangai, Nova Délhi, Bombaim, Moscou. Nenhuma dessas praças era importante há dez anos.

Veja a América Latina, a história do Mercosul. O Brasil tem hoje uma população de cerca de 185 milhões de habitantes. Somados à população da Argentina, mais a Venezuela e, se entrar também a Colômbia, você cria um bloco de consumidores tão forte quanto o bloco europeu. E com uma vantagem: o bloco europeu já chegou a um nível de saturação de consumo, e no Mercosul ainda há tudo por fazer. A distribuição de renda a nível de classes sociais, que foram discriminadas nos outros continentes, vai ter de acontecer agora. Mesmo porque o único escape para esse modelo do consumo são esses outros locais. Já vemos pontos de estrangulamento, como, no caso do Brasil, da estrutura do transporte aéreo.

O problema da segurança e da violência nas cidades já é um estrangulamento de muito tempo. O problema da educação é um gargalo. Não há pesquisa nenhuma, industrial ou agrícola, pegamos carona nas pesquisas dos outros. E uma economia como a do Brasil que está chegando à sofisticação vai ter de resolver esse punhado de problemas que vai provocando a modificação da estrutura de produção. Isso é uma proposta velha, marxista, onde você muda a infra-estrutura, a superestrutura necessariamente muda também. Isso tudo está acontecendo, não sei se para melhor ou para pior, mas está. Pegue um país hoje como a França, por exemplo. É um país completamente estagnado, sem possibilidades de, nos próximos dez anos, sair desse marasmo em que entrou. Estou chegando da Colômbia agora, um país que tem uma capacidade de desenvolvimento ilimitada. Essas coisas vão se combinando de outra forma. Quando você viaja muito, vê muito disso tudo.

Politicamente você sempre se posicionou como um homem de esquerda. Como você a esquerda hoje no mundo face ao desafio de apresentar alternativas nesses tempos de neoliberalismo e globalização?
A esquerda, para enfrentar essa nova realidade, tem de se desfazer e se fazer outra vez. Não há outro jeito. Pensar de uma maneira considerada de esquerda era o quê? Era pensar em distribuição de renda, em uma forma social mais justa. Na realidade, era pensar de uma forma politicamente correta. Hoje as coisas mudaram. Muitas variáveis que não eram importantes passaram a ser. De uma delas acabamos de falar, a ecologia. Hoje, para se ter um pensamento de esquerda, tem de entrar a variável ecológica, bem como o desenvolvimento sustentável, a redistribuição de renda, a pesquisa. A estrutura de esquerda tem de ser refeita.

Nunca a esquerda foi tão forte como é hoje. Mas quem tem um comportamento de esquerda? O Al Gore tem. O presidente Sarkozy, um homem da direita francesa, foi quem criou o Ministério do Meio Ambiente como um dos grandes ministérios do governo, o que até então não era. O Partido Socialista francês morreu por não entender o que estava acontecendo. Na proposta de uma Constituição Européia, a base do partido votou contra, e tinha de votar contra. Da maneira como estava proposto, você poderia empregar trabalhadores poloneses na França, trabalhando na França, a preço de salário polonês, e isso não se podia aceitar. Os indicadores da Constituição eram quase todos financeiros. A base não aceitou isso, a direção do partido votou a favor, e os poucos que votaram contra foram depois colocados de lado.

Nesse momento o Partido Socialista morreu. A direção do partido estava inteiramente em dissonância com a sua base. E quem funciona é a base. O partido terá de se refazer. Acho que as coisas estão se refazendo, se reorganizando, as variáveis já não são mais as mesmas. A esquerda no Brasil, por exemplo, tem propostas que são antigas, velhíssimas, que já amadureceram, secaram, morreram, mas que ainda são utilizadas como instrumento de governo, e acho que isso tem de mudar. Elas têm de ser adaptadas e feitas de outra forma. Mas o pensamento de esquerda nunca foi tão forte e tão vital como agora.

Que propostas antigas ainda são utilizadas como instrumento de governo?
São tantas. Por exemplo, a idéia de que o importante é o proletariado, que o importante é você criar emprego no setor industrial, nos setor de exportação agrícola, que é a idéia de base no Brasil. A forma de criar energia no Brasil... Essas coisas já passaram. O Brasil necessita de energia demais, mas essas formas já não são mais a boas, há outras maneiras de se fazer. Também as estruturas tradicionais e pesadas dos partidos, não se pode mais funcionar assim. Há uma série de coisas que acho que têm de ser mudadas e adaptadas.

Como vê os governos de Evo Morales, na Bolívia, e de Hugo Chávez, na Venezuela, definidos por muitos como "populismo demagógico"?
São realmente coisas do passado no presente. Em 2006, passei dois meses na Venezuela e vi a forma como a coisa está sendo feita e imposta. Vai ser muito duro para o país. Mas a Venezuela vem de um passado terrível, com uma classe no poder que dominou e roubou tudo. Se tivesse sido de uma outra forma, hoje a Venezuela poderia ser um dos grandes países do planeta. Mas roubaram tudo. Então existe uma amargura muito forte na classe que foi roubada durante todo esse tempo e que levou ao poder alguém que se transformou em um ditador, se armando até os dentes. Para quê? Os Estados Unidos vão atacar a Venezuela? Jamais. Passa a ser um poder concentrado na mão de alguém, e não sabemos como esse alguém vai usá-lo. Não é uma forma democrática e aberta de poder. Não vai dar certo. É uma questão de tempo.

Para tomar um caminho interessante, a Venezuela terá de passar por um processo de auto-regeneração muito forte e de sofrimento muito grande também. Tenho medo do Chávez, para o povo venezuelano. Historicamente, você não tem medo, pois sabe que as coisas vão passar. Mas quando você vai lá, conhece as pessoas, vê do jeito que está... vai ser duro.

E o governo Lula?
Eu confio no Lula, acho uma pessoa interessante, o conheço, acho que tem um carisma e que pode fazer as coisas. Não se pode comparar o Lula ao Chávez, pois o Brasil é um sistema democrático. Está em um processo de ajuste e de correção fabuloso do aparelho de Estado, das instituições brasileiras. O Brasil tem instituições fortes. No seu posicionamento internacional, conta com uma chave que poucos países têm, que é um Ministério das Relações Exteriores, baseado no Itamaraty, de uma qualidade e com um quadro de técnicos fantástico. O Brasil tem um exército que se modernizou e se profissionalizou. Conheci vários oficiais e unidades do exército brasileiro representados fora do país, no mundo, e a maneira como se comportam não tem mais a ver com aquele exército velho, de há 40 anos, de que tínhamos medo. Isso mudou. O Brasil tem um sistema federal de coleta de impostos muito justo. Há um sistema de pesquisa em determinados setores muito interessante.

Na agricultura há um sistema que deveria ser mais apoiado, que é a Embrapa. A Petrobrás desenvolveu tecnologia de offshore única no planeta e passou a ser uma das maiores empresas mundiais. Gosto muito da idéia do governo Lula de redistribuição de renda. Não sei se o Bolsa Família é o melhor, mas houve uma revolução. As pessoas no Brasil às vezes não vêem, não têm interesse em ver, representam uma classe concentradora de renda que está morrendo, mas houve uma redistribuição a tal ponto que se o Lula tivesse o direito de se recandidatar - e felizmente que não tem, pois, chega, oito anos de poder é o suficiente em uma democracia como a nossa -, poderia se reeleger. Mas uma indicação do Lula reelege um novo presidente, porque ele criou emprego e promoveu uma redistribuição. Eu sei porque a gente atua no interior no Brasil, e na nossa cidadezinha aumentou a demanda em função de uma mínima redistribuição de renda que houve. E quando você considera o que é o salário mínimo hoje no Brasil... Houve uma revolução nesse sentido e tem de ser reconhecida.

Você deixou o Brasil na época da ditadura, teve confiscado o passaporte brasileiro, e acabou se adaptando muito bem na França. Você se sente brasileiro, um pouco francês, cidadão do mundo?
Meu passaporte foi retido por volta de 1975, e depois entrei com um processo, junto com o Augusto Boal, para recuperá-lo, o que aconteceu em 1979-80, não lembro. Eu tenho documentos franceses, mas me sinto brasileiro. Estou adaptado aqui e tenho filhos nascidos na França, mas sou brasileiro, o que para mim é um prazer e uma honra. Nessas viagens todas pelo mundo me coloco a partir de uma ótica muito mais brasileira do que francesa. E com o privilégio de ter viajado em mais de 120 países, de ter visto esse planeta de dentro, com tempo. Na realidade, devo morar na França somente uns três meses por ano, no resto do tempo moro no mundo. Mas vou muito ao Brasil. Sou um brasileiro com uma formação internacional.

Como fotógrafo, você já disse que sua maneira de enxergar, sua relação com a luz, é brasileira, e sua formação é francesa.
É interessante, porque, pelo lado técnico da fotografia sou formado aqui, mas para os fotógrafos franceses sou considerado como um fotógrafo brasileiro, porque minha maneira de ver não é a daqui. É meio especial. Tudo o que aprendi em fotografia foi aqui, mas isso é uma variável até o momento em que passa ser uma constante, pois o que você aprendeu está aprendido, e o importante na fotografia é o que você tem e traz dentro de você. É a sua visão de mundo, que no meu caso é muito brasileira.

Na pintura, você admira artistas como os irmãos Le Nain, Rembrandt, Géricault.
Fiz estudo da luz dessa gente. Antes de eu ser fotógrafo, era um tipo de luz que me interessava e me tocava muito. Uma pessoa que faz cinema é obrigada a iluminar para filmar, coloca luz artificial e tudo o mais. E o fotógrafo traz a luz dentro dele mesmo. É a luz de onde ele aprendeu, onde cresceu, que passou a fazer parte dele mesmo. E essa luz para mim acho que é muito brasileira, muito a nossa maneira de ver.

Você começou a fotografar paisagens recentemente e diz que evoluiu muito em relação à natureza. Como foi isso?
Essa reaproximação com a natureza foi no Vale do Rio Doce, onde nasci. É tão importante você não cortar com as suas fontes, com a sua raiz. Eu rodei, fiquei anos fora do Brasil, e no dia em que fui fixar uma âncora foi lá onde nasci, de onde saí mesmo. E voltei para aquela luz, para aquele lugar. E isso levou a uma transformação da minha fotografia. Foi aquela experiência, com aquela terra. Claro que tudo é explicável, mas há coisas que você não compreende e nem sabe por que é levado de volta. Uma vez, estava com uma equipe de televisão lá em Aimorés e fui levá-los para uma cidadezinha ao lado, para pegarem um ônibus direto para Vitória. Fui passando por uma estradinha, entrando adentro, e um deles me disse: "Salgado, você morou tanto tempo na França, mas na realidade você nunca saiu daqui" (risos). Acho mesmo que nunca saí de lá. Quando subo aqui no avião para ir ao Brasil, já entro rindo. No avião já me transformo e chego como se nunca tivesse saído de lá.

O seu projeto Gênesis busca regiões virgens nos 46% do planeta que você diz que ainda estão intactos. Como são essas viagens?
Quando você está em uma tribo daquelas lá no interior do Brasil, no fundo do Amazonas, vê que ela não tem nada para aprender aqui com essa sociedade. O que é essencial, já sabíamos há 5 mil anos. Já tínhamos antibióticos há 5 mil anos. Eles têm antibióticos lá. Nós apenas sistematizamos e transformamos em outros componentes químicos para aumentar as doses, a quantidade, mas a base já havia. Antiinflamatório já havia. Os ianomâmis lá do interior de Roraima têm uma noção de geologia perfeita. Eles são seminômades, só vão voltar para um local em que haviam se fixado 100 anos depois, quando a floresta já estiver refeita e reconstituída. Não há grandes novidades acontecendo na espécie humana. Os problemas que temos de amar, de sofrer, de ciúme, de tudo, são os mesmos. O que é interessante na preservação dessas partes do mundo é a preservação da nossa referência. Isso é muito importante.

É quase impossível você fazer uma projeção futura sem olhar para trás. É importante preservar a natureza, os grandes sistemas de água. O planeta não está em perigo, ele é velho de 6 bilhões de anos, e daqui a 6 bilhões de anos ainda vai estar aqui. Quem está em perigo somos nós, nossa espécie. A questão é sermos sábios o suficiente para preservar o que temos, refazer o que desfizemos, para podermos continuar a existir como espécie. Só isso. A idéia desse projeto Gênesis é a de buscar essas áreas, de ajudar a fazer uma nova apresentação do planeta. Minhas fotografias não têm importância. Mas as minhas fotografias, mais o seu artigo, mais as informações da televisão, as organizações que estão militando, as instituições de boa vontade, passam a ser um elemento dentro disso tudo. Nos distanciamos demais do planeta.

Há o fato de termos urbanizado, de nos considerarmos o único animal racional - que é uma mentira, cada espécie tem seu racionalismo. Hoje, se discute a distribuição de renda, a destruição da floresta tropical, a poluição do oceano, a aids, tudo o que se quiser, e não encontramos soluções. Está cada vez mais complicado. Estamos meio perdidos. Nossa espécie está desencontrada. Para mim, o fator principal é que perdemos o contato com o planeta e a idéia de que somos natureza. Acreditamos que somos um ser diferente, privilegiado, com direito a consumir, destruir. Não temos esse direito. Tudo o que é destruído é um déficit. E esse déficit, outro vai pagar por você.

Como você se imagina daqui a dez anos?
Fotógrafos vão longe. É uma profissão em que você vive pra fora, tem válvula de escape o tempo todo. Estive no México há poucos anos, foi o aniversário de 100 anos do Álvarez Bravo. O Henri Cartier-Bresson morreu com 96 anos. Lembro quando trabalhava na agência Magnum, a Eve Arnold, que tinha mais de 85 anos na época, pegava a máquina, entrava no avião e ia para a Índia fotografar. Não me vejo a muito curto prazo terminar minha carreira. Fazer projetos de oito anos como o do Gênesis já é mais complicado, mesmo porque está difícil organizar projetos assim mais longos. Possivelmente este seja meu último longo projeto. A partir daí, vou viver como todo o mundo, o dia-a-dia.

Você já se disse admirador de Guimarães Rosa e de Jorge Amado. O que está lendo agora?
Acabei de ler A fazenda Africana, da escritora dinamarquesa Karen Blixen. É fantástico ler um livro sobre a África escrito nos anos 1930. E reli agora O nome da rosa, do Umberto Eco. Estou sempre lendo. Meu grande companheiro de viagem é o livro, sempre consigo uma horinha para ler.

Questionado se, até ali, a vida havia sido boa com ele, o filósofo Jean-Paul Sartre respondeu: "No todo, sim. Não tenho do que me queixar. Ela me deu o que eu queria e, ao mesmo tempo, me fez reconhecer que não era grande coisa. Mas o que se pode fazer?" E encerrou a resposta com uma grande gargalhada. Até aqui a vida foi boa com você?
Não posso me queixar. A vida foi muito boa para mim. Sou uma das poucas pessoas que teve a oportunidade de ver o planeta a fundo, de conhecer profundamente diferentes culturas no mundo inteiro. E agora, com o projeto Gênesis, tenho a oportunidade de conhecer as coisas mais nobres, mais fantásticas desse planeta, e de mais difícil acesso - porque nas de fácil acesso todo o mundo já foi e destruiu. É uma surpresa a cada curva da vida. Não dá para você ser blasé, porque é um prazer tão grande a cada nova descoberta. Como fotógrafo assim, houve possivelmente uma profissão na Idade Média, que depois desapareceu, que foi a dos andarilhos, pessoas que iam de um lugar a outro, aprendiam, transmitiam, iam passando adiante. Realmente, tenho uma profissão interessante. Fui um privilegiado na vida.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2664968-EI6782,00-Sebastiao+Salgado+A+Africa+sempre+foi+um+enigma.html
Estatuto da Igualdade Racial

Lei entrou em vigor nesta semana e é encarada de forma positiva por ativistas

O Estatuto da Igualdade Racial entrou em vigor esta quarta-feira (20), em todo país. Após tramitar por sete anos no Congresso Nacional, a lei, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, define uma nova ordem de direitos para os cidadãos negros brasileiros, alcançando mais de 90 milhões de pessoas em todo país. Só em Piracicaba, a estimativa é de que 30% a 40% do total da população seja composta por afrodescendentes, algo em torno de 113 a 150 mil pessoas.

"Esses números são estimados. A precisão maior será dada a partir dos resultados do Censo 2010", observa Jurandir Silvestre, presidente do Centro de Documentação e Cultura Negra de Piracicaba. Silvestre vê com bons olhos o estatuto, que passa a ser mais um instrumento em busca da igualdade racial. "É comum dizer-se que todos lutaram nas mesmas condições, mas não é fato. O afrodescendente não teve a mesma igualdade dos outros", observa.

O Estatuto da Igualdade Racial estabelece que discriminação é toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência, origem nacional ou étnica. Essas ações têm como objetivo restringir o reconhecimento de direitos humanos e liberdades fundamentais em campos político, econômico, social e cultural aos afrodescendentes. "Trata-se de um novo mecanismo em busca de firmar a identidade do negro", diz o ativista Dejair dos Santos.

O estatuto estabelece ações afirmativas (elaborados pelo Estado ou iniciativa privada) para a correção das desigualdades, com a promoção de oportunidades para reparar desigualdades presentes durante o processo de formação social do país. A medida busca eliminar a discriminação em todos os setores, como na educação, cultura, esporte e lazer, saúde, segurança, trabalho, entre outros.

O texto institui, por exemplo, pena de até cinco anos para quem impedir, por preconceito, a promoção funcional de negros. O estatuto também passa a garantir a participação dos afrodescendentes em instâncias de deliberação vinculadas ao Poder Público. O artigo que previa a implantação de cotas em universidades públicas foi retirado do projeto pelo Senado. Silvestre e Santos são unânimes ao afirmar o papel que a educação tem nesse processo. "É o principal desafio", observa Silvestre. “Só assim a igualdade de direitos se dará de forma efetiva”, assinala Santos. (Felipe Rodrigues)

Fonte Gazeta de Piracicaba


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A questão da presença negra na América Latina sempre me despertou interesse, acreditava que outros países da América Latina não tinham negros( não como no Brasil), mas no texto do correio brasiliense; http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/10/18/mundo,i=218540/ONU+BUSCA+COMBATER+O+RACISMO+E+RESGATAR+IMPORTANCIA+DOS+AFRODESCENDENTES.shtml, podemos entender um pouco sobre esta presença africana nas Américas. Sempre vejo a representação indígena e a europeia, em maior ou menor quantidade a depender do país americano .Vale a pena ler e entender um pouco mais sobre o assunto!




Andrea Guanais

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ações afirmativas

POLÍTICAS DE AÇÕES DO GOVERNO IMPLEMENTADAS PELO GOVERNO FEDERAL
SAÚDE
Programa AfroAtitude: programa integrado de Ações Afirmativas para Negros do Ministério da Saúde com universidades que possuem programas de Ações Afirmativas para negros e que adotam o regime de cotas para acesso dessa população.
EDUCAÇÃO
Programa Pró-Uni: reserva bolsas aos cidadãos portadores de deficiência e aos autodeclarados negros, pardos ou índios.
Programa Uniafro: programa de Ações Afirmativas para a População Negra nas instituições públicas de educação superior o qual contribui para a implementação de políticas de ação afirmativa voltadas para a população negra.
Bolsas-Prêmio de Vocação para a Diplomacia: programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco (Ministério das Relações Exteriores/ Itamaraty) onde oferta bolsas para candidatos afrodescendentes se prepararem para os exames de seleção à carreira diplomática.
www2.mre.gov.br/irbr/irbr.htm
TRABALHO E RENDA
Projeto Terra Negra Brasil: Desenvolvido especialmente para promover o acesso à terra a jovens de comunidades negras rurais.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

SERRA DA BARRIGA - UNIÃO DOS PALMARES/ALAGOAS/BRASIL

A área
A Serra da Barriga está situada no município de União dos Palmares, distante 100 kms de Maceió. É um sítio histórico onde se localizava o Quilombo dos Palmares. Na década de 80, foi reconhecida pelo governo federal como monumento histórico e em 21 de março de 1988 passa a ser considerada como monumento nacional pelo Decreto nº 95.855.
A Fundação Cultural Palmares recebeu, por termo de entrega concedido pela Secretaria do Patrimônio da União Federal, em 7 de abril de 1998, certidão a qual passa para a sua
responsabilidade, a manutenção e preservação do sítio histórico da Serra da Barriga.
Localização Geográfica

A Serra da Barriga faz parte do Planalto Meridional da Borborema, unidade geomorfológica que compreende terrenos cristalinos submetidos à ação de clima quente e úmido. A área ocupada pela Serra da Barriga e suas ramificações para nordeste, tomando como ponto de partida o vale de um afluente do riacho Açucena até o vale do Mandaú, atinge 8,6 km de comprimento e a sua largura máxima do vale do riacho Pichilinga, ao norte, até o vale do riacho Açucena, ao sul, é de 3,35 km o que lhe dá uma área aproximada de 27,97 km quadrados.
A posição geográfica da área proposta para tombamento é determinada pelos paralelos 09º 09?43? e 09º 11? 31? da latitude sul e pelos meridianos 36º 03? 56? e 36º 06? 26? de longitude oeste, a uma distância de 68 km a noroeste de Maceió, capital do estado de Alagoas. A localização geográfica da Serra pode ser dada pela interseção do paralelo 09º 10? 00? S com o meridiano 36º 05? 00? W que fica 165 km de distância de um dos pontos de maior altitude do bloco principal ( 485 m).

História
A República dos Palmares, como chegou a ser conhecida, iniciou sua formação em 1597 e durou até 1695, situada numa vasta área da Capitania de Pernambuco, principalmente na comarca de Alagoas, em uma região serrana que atingia até 500 metros de altitude, coberta por florestas e de acesso muito difícil. Na época, chegou-se a atingir no quilombo dos Palmares, uma população com cerca de 20 mil pessoas.
Hoje, a Serra da Barriga é uma área que recebe turistas, que buscam conhecer um pouco mais da história do Quilombo dos Palmares. No local, foram construídos um posto de observação e dois mirantes, que estão sendo reformados, de onde se pode admirar toda a beleza do local. Na serra, também são realizadas comemorações, principalmente no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, para relembrar a luta de Zumbi dos Palmares.

Desde sua criação, a preservação do sítio inclui-se entre as atribuições institucionais da Fundação Cultural Palmares, órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Outras ações são realizadas pela FCP/MinC, como projeto de Melhoria e paisagismo do sítio, reposição florística, reforma do observatório e viveiro, manutenção de trilhas.
A Serra da Barriga é um dos mais significativos exemplos de resgate da história dos afro-brasileiros com papel fundamental na reconstrução da trajetória da luta de libertação dos escravos.
Mãe Menininha do Gantois, história de amor pelos orixás e pela Bahia

Brasília, 2/7/07 - Jorge Amado não viajava sem ouvir suas recomendações. Dorival Caymmi não dava um passo sem consultá-la primeiro. Antônio Carlos Magalhães seguia seus conselhos a ferro e fogo. E Vinicius de Moraes corria a escutá-la quando estava na Bahia. Ninguém sabe ao certo quem foi a primeira personalidade a frequentar o Terreiro do Gantois, em Salvador, mas o fato é que os braços acolhedores de Mãe Menininha nunca estavam parados. Fosse recebendo seus numerosos filhos-de-santo - o telefone tocava pelo menos 20 vezes por dia, com ligações de todo o País -, fosse preparando os saborosos aracajé, caruru ou o vatapá como só ela sabia fazer, nenhum traço de exaustão perturbava a rotina da guia espiritual mais paparicada da Bahia.

Neta de escravos, Maria Escolástica da Conceição Nazaré (nascida a 10 de fevereiro de 1894 na capital baiana) foi escolhida na infância pelos santos do candomblé como mãe-de-santo do terreiro fundado pela avó. Ainda criança, sem conhecimento suficiente para assumir o posto mais alto na hierarquia da religião - o de ialorixá, que dita as regras e comanda todo o funcionamento da casa - foi iniciada nos rituais pela tia Pulquéria, sua antecessora. Era então uma moça quieta e franzina, e não escapou do apelido que a acompanhou pelo resto da vida. Aos 28 anos, assumiu definitivamente o terreiro. "Quando os orixás me escolheram eu não recusei, mas balancei muito para aceitar", contou certa vez. Na época, o candomblé vivia uma fase de perseguição a paus e pedras. Relegados ao submundo religioso, os rituais terminavam subitamente com a chegada da polícia.

"Vem olhar, doutor"

A partir da década de 30, a restrição arrefeceu, mas uma Lei de Jogos e Costumes exigia que o candomblé só fosse celebrado em horários específicos, com a autorização de uma delegacia específica. Quando passava das dez da noite, lá vinham os policiais. "Isso é uma tradição ancestral, doutor", dizia a ialorixá ao delegado, com sua paz interior que pouco a pouco se apoderava dos outros. "Venha dar uma olhadinha o senhor também." E o jeito melindroso de Mãe Menininha não só evitou o fechamento do terreiro, como venceu a resistência religiosa do chefe da Delegacia de Jogos e Costumes, que escutou o chamado dos santos e se tornou um praticante da religião depois da extinção da lei, em meados dos anos 70 - a própria Mãe Menininha foi uma das principais articuladoras para o término das proibições.

Como outras crenças, no início do século a religião afro-brasileira também era carregada de conservadorismo. Passar em frente de uma mãe-de-santo sem baixar a cabeça era grave ofensa para os seguidores da casa. "Como um bispo progressista na Igreja Católica, Menininha modernizou o candomblé sem permitir que ele se transformasse num espetáculo para turistas", analisa o professor Cid Teixeira, da Universidade Federal da Bahia. Informal e bonachona, não hesitava em abrir as portas do Gantois para brancos e católicos - uma abertura que, em muitos terreiros, ainda hoje é vista com certo estranhamento.

Programa evangélico

Ecumênica, Mãe Menininha nunca deixou de assistir à missa, numa prova de que o sincretismo religioso da Bahia não é mero chavão. Podia comungar pela manhã e celebrar os rituais do candomblé à noite. No meio tempo, cuidava das duas filhas - Cleusa e Carmen - e coordenava todas as atividades do terreiro. Não eram poucas, já que dentro do próprio Gantois criavam-se galinhas e cultivava-se milho. Sem cobrar um tostão, passava o dia atendendo seus seguidores. Para dar uma trégua aos santos, entregava-se de corpo e alma a pequenos prazeres. Cuidava com esmero da vasta coleção de objetos de louça, presentes dos filhos-de-santo ilustres. Quando estava assistindo aos capítulos da novela Selva de Pedra, ninguém arriscava importuná-la. E grudava no rádio colocado no criado-mudo do quarto para escutar programas evangélicos e música popular - uma de suas cantoras preferidas era Maria Bethânia, ainda hoje frequentadora do Gantois, junto com o irmão Caetano Veloso.

Por trás das poderosas lentes dos óculos da mãe-de-santo havia uma mulher de força inabalável. Mais que superar preconceitos e afirmar o candomblé como símbolo da cultura negra, abriu a seita para novos seguidores. Mais que ser católica, convenceu os bispos a permitir a entrada nas igrejas de mulheres com os tradicionais vestidos do candomblé. Vestidos que ela mesma exibia com elegância: brancos para Oxalá, dourados para Oxum e azuis para Oxóssi.

Sucessora

Com sua paciência invejável, não se cansava de tirar dúvidas sobre o candomblé. "Deus? O mesmo Deus da Igreja é o do candomblé. A África conhece o nosso Deus tanto quanto nós, com o nome de Olorum. A morada Dele é lá em cima, e a nossa cá embaixo", explicava. Mãe Menininha morreu a 13 de agosto de 1986, aos 92 anos. Sua sucessora foi a filha Cleusa - que morreu no final do ano passado. A nova ialorixá do Gantois será escolhida até novembro, numa cerimônia que pode durar até um mês.

Pesquisa: Oscar Henrique Cardoso, ACS/FCP/MinC, com apoio da Revista IstoÉ.

QUILOMBOS

As denominações quilombos, mocambos, terra de preto, comunidades remanescentes de quilombos, comunidades negras rurais, comunidades de terreiro são expressões que designam grupos sociais afros-descendentes trazidos para o Brasil durante o período colonial, que resistiram ou, manifestamente, se rebelaram contra o sistema colonial e contra sua condição de cativo, formando territórios independentes onde a liberdade e o trabalho comum passaram a constituir símbolos de diferenciação do regime de trabalho adotado pela metrópole.

O Decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, em seu artigo 2º, considera os remanescentes das comunidades dos quilombos, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações terrritoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra, relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.

Garantir a posse da terra e promover o desenvolvimento sustentável das comunidades remanescentes dos quilombos é o objetivo principal do Governo Federal, responsável pelo Programa Brasil Quilombola. Além da regularização fundiária, os projetos dirigem-se à construção de escolas, alfabetização, saúde, habitação, saneamento, emprego, renda e luz elétrica.

Os números são bastante favoráveis ao apontar o êxito da ação, a qual conta com um grupo interministerial, o qual inclui a participação da Fundação Cultural Palmares/MinC. Cerca de 5.500 mulheres quilombolas já foram capacitadas para aumentar a renda familiar, 4.600 famílias de 136 comunidades já dispõem de luz elétrica.

Atualmente, o governo está analisando processos de regularização de terras para os remanescentes dos quilombos, iniciativa que irá beneficiar 500 comunidades de 300 territórios. O governo federal pretende, até 2008, beneficiar 22.650 famílias de 969 comunidades quilombolas em todo o território nacional.

Conforme registros junto a Fundação Cultural Palmares, estão identificadas, oficialmente, 1.000 comunidades remanescentes dos quilombos. As maiores concentrações destas comunidades estão nos estados da Bahia e Maranhão. Existem comunidades quilombolas espalhadas por todos os estados brasileiros, de norte a sul. Algumas iniciativas são elencadas como prioritárias pela instituição para valorizar o patrimônio dos remanescentes dos quilombos:

PROTEÇÃO ÀS COMUNIDADES NEGRAS TRADICIONAIS

  1. Apoio a projetos de revitalização e preservação dos terreiros de religiões de matriz africana.
  2. Apoio a confecção de inventários sobre manifestações sócio-culturais e religiosas.
  3. Revitalização da Casa das Minas, em São Luiz, Maranhão.
  4. Construção do Memorial dos Lanceiros Negros, na Serra de Porongos, município de Pinheiro Machado, Rio Grande do Sul. Projeto realizado em parceria com a prefeitura de Pinheiro Machado.
  5. Construção do Monumento aos Lanceiros Negros, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Projeto realizado em parceria com a prefeitura de Porto Alegre.
  6. Funcionamento, manutenção e preservação do sítio histórico da Serra da Barriga, em União dos Palmares, Alagoas.
  7. Desenvolvimento de ações do Programa de Ações Estruturantes, com a entrega de equipamentos para o incremento da sustentabilidade econômica das comunidades remanescentes dos quilombos.
  8. Incremento da assistência jurídica às comunidades quilombolas. Diretamente, a Fundação Cultural Palmares presta atendimento direto há 100 comunidades em todo o Brasil, e, indiretamente, por contato telefônico, assistência há mais de 200 grupos.
  9. Participação em iniciativas intergovernamentais, com os demais ministérios da esfera federal em ações nas áreas de educação, trabalho e renda, saúde e cidadania para a população quilombola.
Fundação Palmares

AS AÇÕES AFIRMATIVAS NO GOVERNO FEDERAL

A Conferência Mundial de Durban se constituiu em um importante fator para a atualização do debate e criação do espaço político necessário para a formulação e implementação de políticas de promoção da igualdade racial. Seu impacto nos vários países do mundo foi bastante diversificado, dependendo de fatores internos, tais como a existência de movimentos organizados e vontade política de setores governamentais. No caso do Brasil, a Conferência de Durban abriu caminho para o que antes da sua realização parecia impensável: o início do processo de discussão e implementação de políticas de ação afirmativa. Dados do Centro de Estudos Afro-Brasileiros (Afro) da Universidade Cândido Mendes contabilizam, desde 1999, pelo menos 208 iniciativas governamentais e não-governamentais de ação afirmativa para negros no País, sendo a maioria na área de educação, mas ainda há muito o que fazer para se promover a igualdade racial.

O Governo Federal incrementou seus esforços para o combate à desigualdade racial, visando corrigir distorções vigentes há mais de um século no País. O lançamento da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial e a assinatura de um decreto que regulamenta a ação do governo no reconhecimento, identificação e titulação das terras de quilombos comprovam que a questão é tratada como prioridade por esta administração.

Mais do que emissão de títulos de propriedade, a regularização fundiária para as áreas remanescentes de quilombos trata-se de uma reparação histórica - ainda que parcial - e do reconhecimento público da contribuição dada pelos quatro milhões de africanos escravizados e seus descendentes na edificação do Brasil. Oficialmente, o governo brasileiro tem mapeadas 743 comunidades remanescentes de quilombos. Essas comunidades ocupam cerca de 30 milhões de hectares, com uma população estimada em 2 milhões de pessoas. Somada a regularização das terras quilombolas, também trabalhamos em conjunto pela implantação de saneamento básico em comunidades remanescentes de quilombos.

Neste processo, a Fundação Cultural Palmares/MinC vem participando de missões internacionais. Tais intercâmbios contaram com a presença de dirigentes da instituição no Continente Africano e também em países das Américas, como Cuba e Haiti. Estreitas relações são firmadas para desenvolver a construção de uma identidade negra. Com isso, a FCP é o braço do Ministério da Cultura em torno da solidariedade para com os países africanos e seus descendentes, construindo um novo momento governamental, um momento de articulação internacional.

Algumas iniciativas promovidas pela instituição serviram para reforçar este propósito. Podem ser citadas a realização do Seminário Cultura e Desenvolvimento na CPLP, que reuniu intelectuais e representantes de países de língua portuguesa, em Salvador (2004), Mostra Pan-Africana de Arte Contemporânea, com a presença de mais de 2 mil participantes, artistas brasileiros e africanos, em Salvador (2005) e o Seminário Internacional Saídas da Escravidão e Políticas Públicas (2005) , o qual reuniu autoridades, especialistas e representantes de organizações da sociedade civil de 12 países - Brasil, África do Sul, Colômbia, Cuba, Equador, Estados Unidos, França, Haiti, Peru, Reino Unido, Uruguai e Venezuela.

O reconhecimento pelos serviços prestados pela Fundação Cultural Palmares, como forma de estimular a prática de ações e feitos dignos garantiu a instituição o recebimento, por parte do Itamaraty, da medalha Ordem de Rio Branco. Entitulada em homenagem ao Patrono da Diplomacia brasileira - o Barão do Rio Branco -, a Ordem de Rio Branco foi instituída pelo presidente João Goulart, em fevereiro de 1963, e é destinada a premiar os que se tenham tornado merecedores desse reconhecimento pelo Governo Federal, por serviços prestados ao país, como forma de estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção. A medalha confirma a Fundação Palmares a recuperação do lugar da entidade no campo da política externa nas relações entre o Brasil e o continente africano, além de se tornar referência na diplomacia para com as nações da América que possuem população afro-descendente.

Com isso, somos parceiros, numa atuação interministerial de um conjunto de ações para combater a desigualdade e promover a igualdade racial - inclusão do negro na cultura, educação, saúde, habitação, emprego - para uma população superior a 80 milhões de brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


"Vencer a desigualdade racial é, também, lutar por soberania. Não a soberania baseada na dominação de um povo sobre o outro. Mas aquela baseada no estreitamento de relações comerciais, políticas e culturais com aqueles povos e continentes, que aspiram, como nós, a um futuro de independência e dignidade. Sinto-me de alma lavada por ter sido o presidente da República que, no primeiro ano de mandato, decidiu saldar uma dívida antiga do Brasil: acabamos de percorrer uma parte do imenso continente africano para dizer e ouvir em cinco países: somos irmãos, somos parceiros, temos desafios comuns, temos lições a trocar. Vamos caminhar juntos. Vamos acelerar o nosso passo, conscientes de que não é possível superar, em quatro anos, o que se estabeleceu em quatro séculos nos dois continentes. Mas essa é a verdadeira globalização humanitária; essa é uma forma de desenvolvimento pela qual vale a pena viver e lutar: aquela na qual a cor de um ser humano não define o seu caráter, a sua inteligência, os seus sentimentos e a sua capacidade, mas apenas expressa a maravilhosa diversidade racial e cultural da qual somos feitos". Luis Inácio Lula da Silva, Presidente da República, em pronunciamento durante as comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra, Serra da Barriga, Alagoas, 2003.


Fundação Palmares

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tradição Yorùbá

A tradição ioruba é, entre as culturas africanas importadas durante o tráfico negreiro, a que os brasileiros melhor compreendem ou, em muitos casos, a única que parecem considerar relevante.




Pierre Verger explica que tal predominância deve-se provavelmente ao fato de que este fora o último povo africano a chegar em massa no Brasil a partir do final do século XVII, mas principalmente após 1830, quando a cidade-estado de Oyo fora destruída pelos exércitos muçulmanos dos fulanis. Trouxeram consigo uma elite de nobres sacerdotes, príncipes e chefes de Estado dispersos em meio à multidão de gente do povo. Na visão de Gisele Cossard, os iorubas ter-se-iam organizado para escapar à escravidão, promovendo assim a expansão de uma casta de negros livres que já existiria anteriormente em menor escala. Apesar de ignorada pelos livros escolares e anais da história oficial, essa classe média de negros e mestiços foi muito atuante. Desenvolveu-se sobretudo em Salvador e, por ocasião dos fluxos migratórios em direção ao sudeste do País (principalmente após a abolição), veio a exercer poderosa influência sobre numerosas populações afro-brasileiras que viviam em situação sócio-econômica muito inferior, em outras cidades brasileiras. Um bom exemplo disso é a força da colônia baiana que se instalou no centro do Rio de Janeiro no final do século passado, onde viveu a legendária Tia Ciata.

Informações históricas sobre as antigas cidades-estado de Ifé e Oyo, que mais tarde seriam consideradas como partes do reino ioruba, estão sendo processadas a partir de escavações. Leo Frobenius encontrou na atual cidade iorubana de Ile-Ifé, entre os anos de 1910 e 1911, esculturas em metal e terracota que teriam sido construídas durante os séculos X e XI. Essas esculturas, conhecidas como “cabeças de Ifé”, trouxeram novos dados sobre a vida e a arte iorubas; contrariando tudo que era até então concebido como arte tipicamente africana, as esculturas possuíam dimensões naturalistas, sendo confeccionadas com uma liga metálica que combina bronze, chumbo e cobre. Talvez por considerá-las elaboradas demais para serem totalmente africanas, Frobenius supôs terem elas alguma conexão com a arte grega, hipótese hoje descartada. Submetendo-se essas vinte cabeças esculpidas à análise de carbono 14, foi possível determinar o apogeu da civilização que floresceu em Ifé entre os séculos XII e XIV, muito embora haja indícios de que, desde o final do primeiro milênio, os iorubas já trocassem manufaturas com os árabes ao norte de seu país.

Já Oyo vivera seu período de expansão a partir do século XIV, chegando a subjugar os povos vizinhos do antigo reino do Daomé, tendo-se mantido livre da presença européia até o começo do século XIX, quando esta foi arrasada e a autonomia ioruba desmantelada. Só então os negros dessa etnia foram maciçamente incluídos entre os escravos de guerra.

Quando os europeus entraram pela primeira vez nas principais cidades iorubas admiraram-se não só com o seu nível de urbanização, mas com a beleza de sua arquitetura e estatuária sagrada. Cada cidade era organizada em torno do culto a uma divindade específica, a qual muitas vezes relacionava-se intimamente com algum poder ou força da natureza, bem como com o passado mítico das dinastias reais, como no caso de Xangô, Oranian e Ogum. No momento da invasão européia, constatou-se que aquele povo já há muito desenvolvia a metalurgia e produzia sofisticadas manufaturas.
A sobrevivência da tradição ioruba no Brasil também exigiu de seus líderes e seguidores a elaboração de estratégias sincréticas de convivência com a religião oficial. Só que, neste caso, o sincretismo não foi tão aprofundado quanto o fora pelos kongoleses, funcionando mais como um disfarce que lhes permitia uma relativa liberdade de ação, no tocante à realização de seus rituais. Esse mecanismo de disfarce fora anteriormente empregado pelos negros gêges, procedente do antigo Daomé (atual Benin) os quais, segundo alguns estudiosos, além de antecederem a presença ioruba no Brasil, também teriam sido pioneiros em diversos atos de grande importância histórica para a diáspora africana em nosso país, incluindo a fundação de casas de candomblé na Bahia.

Confrarias e irmandades de pretos foram instituições sob cuja “proteção” teriam sido organizados os primeiros candomblés baianos. Mas nos terreiros gêge-nagô, enquanto imagens de santos católicos aparecem em partes mais externas do templo, todos os fiéis sabem que o assentamento da energia está mesmo é nas pedras sagradas, que se encontram veladas sob os panos e plantas dos altares, escondidos da curiosidade e do preconceito de olhares alheios.

Ainda que os povos do Kongo e do Daomé tenham chegado ao Brasil antes dos iorubas, a enorme influência desse último grupo em nosso dia-a-dia cultural demonstra que, de um modo ou de outro, a liderança ioruba foi aceita e reforçada pelas demais etnias afro-brasileiras. Ao nosso ver, um dos fatores que contribuíram bastante para isso foi a conservação do idioma ioruba - pois é na língua que se encontra codificada grande parte das informações que constituem a identidade cultural e religiosa de um povo, e os demais idiomas africanos presentes no Brasil já se teriam fragmentado com o tempo.

O domínio dos iorubas no contexto afro-brasileiro deveu-se também ao emprego de uma sábia diplomacia que pode ser observada na organização multicultural dos terreiros. Além de agruparem num único templo divindades antes cultuadas separadamente em diferentes regiões da atual Nigéria, os iorubas incorporaram ao seu panteão Nanã-Obaluaiê-Oxumarê, a tríade de deuses adorados pelos seus ex-arquiinimigos daomeanos, reservando também um discreto espaço para entidades de ascendência kongo-ameríndia; caboclos, pretos-velhos e exus, no mais das vezes agrupados sob o nome genérico de "eguns" (espíritos dos mortos). Entretanto, o idioma africano ensinado e praticado nos terreiros de filiação mais tradicional é o ioruba arcaico, que impressiona pela “pureza” até mesmo os nigerianos de hoje. A hierarquia interna das casas de candomblé e a linha de sucessão por consangüinidade são bastante rígidas, mas, ao mesmo tempo, observamos que entre sacerdotes, fiéis e freqüentadores do candomblé há pessoas de todas as etnias e classes sociais brasileiras. Isso nos leva a crer que, na verdade, a grande diplomacia ioruba foi a de saber combinar uma estrutura altamente tradicionalista e conservadora a uma base social verdadeiramente inter-étnica e multicultural.

Com êxito inegável, os iorubas conseguiram fazer de seus orixás as divindades africanas mais conhecidas no Brasil. Sete deles (Xangô, Iemanjá, Oxóssi, Oxum, Ogum, Iansã e Ibejí) foram incorporados pela umbanda como líderes das sete categorias básicas (falanges) de espíritos concebidas por esta religião. Oxalá, sincretizado com Jesus, é adorado como a entidade mais elevada, numa escala ascendente de evolução espiritual; Nanã e Omulu, de origem gêge, estão presentes em um degrau hierárquico inferior, pois não chefiam nenhuma falange, ligando-se (na maioria das vezes) aos grupos chefiados por Iemanjá e Iansã, respectivamente. No candomblé, os orixás não costumam falar, comunicando-se sobretudo através dos búzios; na umbanda, os orixás comumente não se incorporam nos médiuns, existindo apenas como uma referência arquetípica que indica simbolícamente o tipo de energia (ou vibração) que caracteriza cada falange, ou grupo de espíritos que se harmonizam entre si.

A cosmogonia ioruba compreende uma divisão básica entre céu (Orum/sol/mundo divino) e terra (Aye/mundo dos vivos). Seu deus supremo, Olorum (o senhor do céu) está no mundo de cima; os heróis/deuses civilizadores são quase todos masculinos, embora o patriarcado ioruba seja mitologicamente ameaçado pela fúria de poderosas matriarcas como Nanã e Olokun (que é masculina em Benin e feminina em Ifé). Sua concepção de energia/força sagrada se define pela constituição do Axé, que é relacionado ao número três e às cores vermelho, preto e branco. Conforme a crença ioruba, Olorum, o Ser Supremo, serve-se de auxiliares para criar, manter e transformar o mundo.

Com efeito, a altivez e o orgulho próprio dos iorubas, bem como seu talento para a promoção social de seus valores culturais e religiosos, fizeram deste grupo um exemplo positivo a ser seguido por toda uma multidão de descendentes de africanos, combatendo a depressão causada pelos séculos de opressão escravagista. Todavia, o exagero dessas mesmas qualidades também facilita a manutenção de injustiças históricas contra outras tradições africanas no Brasil. E assim que todas as coisas belas e importantes feitas por negros neste país são sistematicamente atribuídas aos iorubas, que, então, recebem as honras por façanhas cujo crédito, na realidade, não lhes pertence. Nossa intenção ao destacar esse fato é contribuir para que o legado positivo da liderança ioruba seja priorizado, em detrimento de enganos desta natureza que, conquanto velados, continuarão a existir.

Fonte: www.opasquim.com
Yorùbá

Os iorubás ou iorubas (em iorubá: Yorùbá), também conhecidos como ou yorubá (io•ru•bá) ou yoruba, são um dos maiores grupo étno-linguístico ou grupo étnico na África Ocidental, composto por 30 milhões de pessoas em toda a região. Constituem o segundo maior grupo étnico na Nigéria, com aproximadamente 21% da sua população total.





Origem

As lendas contam que Ilé-Ifé teria sido o próprio berço da humanidade. Ali Todos os povos e reinos descenderiam do deus-rei Odudua, fundador da cidade sagrada. Outra lenda diz que Odudua seria o condutor de uma gente vinda do Leste.




Após a fundação da cidade sagrada o povo teria se espalhado pela região e tomou forma final por volta do final do primeiro milênio. Possível época da fundação de Oyo, capital política dos iorubas. Cidades independentes com seus governantes, camponeses. O Senhor do reino ratificava o poder dos mandantes de cada cidade que era chamado de Bale e tinha a assembléia dos notáveis, que era na realidade a detentora da autoridade. O guarda muralhas, em geral era um mágico, o babalaô, que recolhia os impostos. Uma aristocracia improdutiva controlava as armas, o poder político, o comércio local, nacional e internacional.




As comunidades iorubas que se desenvolveram principalmente no sudeste da atual Nigéria constituíram um dos grandes centros civilizatórios da Guiné e chegaram a influenciar outras civilizações da região, como o reino de Benin. Esta irradiação cultural não se restringiu apenas ao continente africano.

A maioria dos iorubás vivem em grande parte no sudoeste da Nigéria; também há comunidades de iorubás significativas no Benin, Togo, Serra Leoa, Cuba e Brasil. Os iorubás são o principal grupo étnico nos estados de Ekiti, Kwara, Lagos, Ogun, Ongo, Osun, e Oyo. Um número considerável de iorubas vive na República do Benin, ainda podendo ser encontradas pequenas comunidades no campo, em Togo, Serra Leoa, Brasil e Cuba.

Milhares de iorubas escravizados foram desembarcados no Brasil, fecundando a cultura e a história do nosso país. Uma explicação plausível sobre a gênese do povo ioruba, seria as diversas migrações através das regiões entre o Lago Chade e o Níger.




Bem como tendo acesso ao mar, eles compartilham fronteiras com os Borgu (variadamente chamados Bariba e Borgawa) no noroeste, os Nupe (que eles chamam muitas vezes, "Tapa") e os Ebira no norte, os Edo que também são conhecidos como Bini ou povo benin (não-relacionado com o povo da República do Benin), e os Ẹsan e Afemai para o sudeste. Os Igala e outros grupos relacionados, encontram-se no nordeste, e os Egun, Fon, e outros povos de língua Gbe no sudoeste. Embora a maioria dos iorubás vivam no oeste da Nigéria, há também importantes comunidades yorubás na República do Benin, Gana e Togo.

A maioria dos iorubás são cristãos, com os ramos locais das igrejas Anglicana, Católica, Pentecostal, Metodista, e nativas de que são adeptos. O islamismo inclui aproximadamente um quarto da população iorubá, com a tradicional religião iorubá respondendo pelo resto. Os iorubas têm uma história urbana que data de 500 d.C. As principais cidades iorubás são Lagos, Ibadan, Abeokuta, Akure, Ilorin, Ogbomoso, Ondo, Ota, Shagamu, Iseyin, Osogbo, Ilesha, Oyo e Ilé-Ifè.

Arte


Escultura cabeça de bronze
Yoruba, Ife, Nigéria.

Os Yorubas do Sul da África Ocidental (República do Benin, Nigéria e Togo, incluindo também peças de Gana, Camarões e Serra Leoa), tem uma muito rica e vibrante comunidade artesanal, criando arte contemporânea e tradicional. O costume de arte e artesãos entre o Yoruba é profundamente assinalado no corpo literário Ifá que indica os orixás Ogun, Obatala, Oxum e Obalufon como central à mitologia de criação inclusive a obra artística (isto é a arte da humanidade) Ao longo dos anos, muitos já vieram cruzar idéias estrangeiras da obra artística e arte contemporânea com as formas de arte tradicionais encontradas na África Ocidental.

Língua

O iorubá ou ioruba (Èdè Yorùbá, "idioma iorubá") é um idioma da família linguística nigero-congolesa, e é falado ao sul do Saara, na África, dentro de um contínuo cultural-linguístico, por 22 milhões a 30 milhões de falantes.

A língua iorubá vem sido falada pelo povo iorubá há muitos séculos. Ao lado de outros idiomas, é falado na parte oeste da África, principalmente na Nigéria, Benim, Togo e Serra Leoa.

No continente americano, o iorubá também é falado, sobretudo em ritos religiosos, como os ritos afro-brasileiros, onde é chamado de nagô, e os ritos afro-cubanos de Cuba (e em menor escala, em certas partes dos Estados Unidos entre pessoas de origem cubana), onde é conhecido também por lucumí).

Pesquisas

Segundo diversos pesquisadores o termo iorubá é recente. Segundo Biobaku, aplica-se a um grupo linguístico de vários milhões de indivíduos. Ele acrescenta que, "além da [língua] comum, os iorubas estão unidos por uma mesma [cultura] e tradições de sua origem comum, na cidade de Ifé, mas não parece que tenham jamais constituído uma única entidade política, e também é duvidoso que, antes do século XIX, eles se chamassem uns aos outros por um mesmo nome". A. E. Ellis mencionou-o, judiciosamente, no título do seu livro The Yorùbá speaking people ("O povo que fala iorubá"), dando a significação de língua a uma expressão que teve a tendência a ser posteriormente aplicada a um povo, a uma expressão ou a um território. Antes de se ter conhecimento do termo iorubá, os livros dos primeiros viajantes e os mapas antigos, entre 1656 e 1730, são unânimes em chamar Ulkumy ou Ulcuim, com algumas variantes. Depois de Snelgrave, em 1734, o termo Ulkumy desapareceu dos mapas e é substituído por Ayo ou Eyo (para designar Oyo).

Francisco Pereira Mendes, em 1726, comandante do forte português de Ajudá, já mencionava em seus relatórios enviados à Bahia os ataques dos ayos contra os territórios de Agadjá, rei de Daomé chamado de "o Revoltoso" por haver atacado Allada em 1724, e que iria, posteriormente, conquistar Uidá, em 1727. Foi esse povo, chamado atualmente uidá (glébué para os daomeanos, igéléfé para os iorubás, ajudá para os portugueses, juda ou grégoy para os franceses, Whidah para os ingleses e fida para os holandeses) e habitado pelos hwéda, que se tornou o principal ponto de exportação dos escravos originários das regiões vizinhas, inimigos do Daomé.

Fontes: Wikipédia / Prefeitura de Barra Mansa

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

13 de maio - O Resgate Por Nei Lopes*

Na comunidade humana não existem raças, todos sabemos. Mas o racismo existe, sabemos também. Como sabemos, ainda, que no Brasil ele nos atinge principalmente a nós, pretos e mulatos, ou seja, aos negros. Sabemos, mais, que, aqui, os negros são os mais pobres exatamente porque são negros. Essa condição ainda é conseqüência do histórico “13 de maio”, quando a escravidão foi abolida sem nenhum projeto de beneficio social para os emancipados. E, para reparar o erro, lutamos pela adoção das chamadas “ações afirmativas”, entre as quais as políticas de “cotas”.

Os opositores das ações afirmativas, hoje tão discutidas, costumam argumentar dizendo que elas são inconstitucionais por ferirem o princípio da igualdade expresso no art. 206 da Constituição Federal. E com relação à adoção de políticas de cotas nas universidades, outros argumentam com a autonomia das universidades, assegurada pela Constituição em seu art. 207.

Entretanto, é bom observar que, na elaboração de uma lei, um dos elementos principais a serem considerados é o aspecto social. As leis são feitas para organizar as condições de vida das pessoas dentro da sociedade e tornar possível a boa convivência. As prerrogativas legais concedidas às pessoas devem ser exercidas não apenas em proveito próprio mas também levando-se em conta os interesses sociais. Assim, o estudante bem formado tem todo o direito de ocupar sua vaga na melhor universidade, desde que essa ocupação não represente a exclusão de milhares de outros que não tiveram oportunidade de se formar bem. E o princípio de ação afirmativa contido na política de cotas para negros nas universidades, o que visa é corrigir uma desigualdade mais do que comprovada.

Apesar de nossa Constituição proclamar que os direitos devem ser iguais para todos os brasileiros, este ideal até agora não se concretizou para o povo negro como um todo. Então, tratar de maneira diferenciada um grupo que teve e tem menos oportunidades de acesso a saúde, educação, moradia, trabalho etc, embora pareça inconstitucional, é uma obrigação do Estado brasileiro, em atenção ao princípio de que toda Lei deve ter um alcance social, sendo feita e posta em prática para beneficio de toda a sociedade. Mesmo porque o que a lei condena é a discriminação e não a aceitação da diversidade.

Esse tratamento diferenciado não é um privilégio e, sim, uma tentativa de diminuir a enorme desigualdade social que exclui o povo negro, concedendo a este povo, finalmente, direitos que sempre lhe foram sonegados por conta das várias formas de racismo sob a quais sempre se escondeu a propalada “democracia racial” brasileira. Criar políticas de ação afirmativa em beneficio do povo negro, isto sim é que é “democracia racial”. Pois é criar oportunidades de acesso à completa cidadania, começando pela educação, levando em conta a diversidade étnica de toda a população.

Mas só instituir essas cotas não basta. Observemos que hoje, entre as melhores universidades públicas brasileiras, apenas a Universidade Federal de Goiânia tem em seu corpo docente mais de 1% de professores negros – para sermos mais exatos, tem 1,2%. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ, que aliás foi a primeira a instituir o sistema de cotas em seu vestibular, tem apenas 0,21% de negros entre seus 2.300 professores.

A erradicação do racismo no Brasil, então, pressupõe melhorar a educação em todos os níveis. E, além da educação, melhorar a saúde, as oportunidades de emprego, as condições de moradia, transporte etc.

Nesse quadro, o ingresso de alunos negros e futuros professores nas universidades (o simples fato de chegarem eles ao vestibular, apesar de todas as condições adversas, é seu grande mérito) através do sistema de cotas (naturalmente abolido quando seus objetivos forem totalmente atingidos) é o principal resgate da dívida que a sociedade brasileira contraiu com o povo negro há exatos 120 anos.

Extraído do site do autor:
http://www.neilopes.blogger.com.br/

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sapucaia do Sul e a lei 10639/03

Um breve histórico da questão racial no Brasil

Transladados de terras distantes, os negros que vieram a compor a maior parcela da mão-de-obra da nossa história passaram por imensas dificuldades. Resultado de uma concepção racista, a lógica de negociar seres humanos de pele escura como se fossem gado, perpassou séculos e continentes. A grave situação social, pela qual os descendentes de africanos hoje passa, vem daquele histórico, de barbárie em prol de um dito processo civilizatório. Projetos sociais que hoje se multiplicam visam amenizar as graves consequências de uma herança histórica.

No Brasil pré-colonial, os chamados indígenas viviam conforme a concepção de uma comunidade coletiva, com um grau de “primitivismo” que pouco perdurou após a chegada do homem branco europeu. Rompendo drasticamente com a sistemática da partilha, da igualdade, da liberdade e da solidariedade, o colonizador europeu extirpou riquezas e atacou costumes: um processo de “domesticação” levado a efeito segundo os princípios do catolicismo pós-idade média. Havia um objetivo fundamental, que passava pela obtenção maior possível de bens materiais. Num primeiro momento, esses bens eram pedras e metais preciosos. Não obstante, o processo de apropriação estendia-se aos corpos das indígenas, muitas sendo estupradas pelos desbravadores lusitanos.

A chegada dos escravos africanos foi acompanhada de uma profunda transformação, tanto da história do nosso país quanto da vida dos forçados imigrantes. O território começava a se configurar e dar forma àquilo que viríamos a denominar de Brasil. Atravessando diversos ciclos econômicos, o negro escravo, cujo modo de vida tinha aspectos em comum com os nossos indígenas, foi sendo usado à exaustão. Aqueles que sobreviviam à sofrida escravidão eram mantidos à distância da posse dos meios de produção e do contato com o conhecimento formal. Concomitantemente, constituía-se o país e extirpavam-se traços de humanidade dos descendentes dos povos africanos. Deste processo, resultam profundas contradições, até hoje muito presentes na “guetização” crescente em favelas brasileiras.


Processo de escolarização em terras brasileiras


Bem como a discriminação tão presente na lógica comercial-escravocrata européia, a formação de espaços educacionais em nosso país obedeceu à ideia de inferiorização daqueles que destoavam do fenótipo de padrão europeu. A exploração dos espaços invadidos pelos colonizadores ocorria segundo a perspectiva de que os seres inferiores deveriam se civilizar. Ou seja, especificidades culturais eram jogadas na lata de lixo da história, juntamente com muitos corpos mutilados, violentados. Disfarçados de catequistas, membros de religiões dos brancos promoviam um verdadeiro massacre, destruindo inclusive registros escritos.

“São escassos os registros relativos à população akwe-xerente anteriores ao século XIX. Independentemente de um possível contato com os missionários jesuítas, as poucas historiografias existentes evidenciam que o início da formalidade do ensino, no âmbito da sua realidade, se encontra num modelo educacional catequético. Seja na missão dos capuchinhos ou nas desobrigas dos freis dominicanos, vê-se a escola surgir a partir do olhar de quem se percebe como elemento pertencente ao topo da escala evolutiva, de quem enxerga, nas variadas culturas, um percurso único pelo qual todos devem passar. Essa lógica de pensamento, típica das ideologias dominantes, deu um novo rumo para o processo dinâmico próprio ao contexto sócio-político-cultural das suas comunidades. Do contato adveio a sobreposição de um ser ao outro, um cotidiano ao outro, um sonho ao outro.”

FERREIRA, Rogério. “A educação escolar no universo akwe-xerente”. In A metamorfopsia da educação: hiatos de uma aprendizagem real. Organização Alexandre Dias, Rogério de Almeida. São Paulo, Zouk, 2002, p.108.



O fim da escravidão e a situação do negro no país


O processo abolicionista no Brasil não foi acompanhado da conscientização dos proprietários quanto à reparação da situação de desigualdade aqui estabelecida. A discussão por parte daqueles dava-se quanto à indenização para reparar uma perda material. Alegavam os mesmos que, não podendo mais explorar a mão-de-obra que haviam importado da África, agora estariam em prejuízo.

As elites se acertaram: ficou decidido que os proprietários receberiam a tão pedida indenização. Por outro lado, para suprir a necessidade de mão-de-obra, facilitaram o ingresso de imigrantes para o trabalho em nossas terras. Essa foi a solução apresentada. Quanto aos escravos, que agora saíam dessa condição? Foram relegados à marginalidade; alguns continuaram na mesma situação de perda da liberdade, embora disfarçada, e outros começaram o processo que daria início à favelização em nosso país.

Dadas as circunstâncias históricas, é possível ter uma ideia da atual situação do negro em nosso país. Se a discriminação racial é imensa no Brasil atual pensemos bem como era no final do século XIX!

A lei 10.639 foi criada recentemente para começar a criar condições para corrigir uma questão histórica. Isso porque necessitamos ter consciência sobre os problemas para que possamos dar início ao encaminhamento de soluções. Nesse sentido, as escolas necessitam organizar os seus currículos para abordar a condição de exclusão social em nosso país. Exclusão essa, que se estende a tantos outros segmentos da sociedade.

Em termos de Secretaria de Educação, estamos propiciando formação para nossos professores abordarem em sala de aula a questão das diferenças étnicas. Dividido em dois blocos por noite, o Seminário irá tratar relevantes temas para dar início ao processo de instrumentalização dos nossos profissionais quanto à abrangência de um assunto que diz muito da nossa história.



Vanderlei Genro - Mestre em História, Diretor Pedagógico SMED. 29/setembro/2009